Neil Gaiman: Lugar Nenhum

Lugar Nenhum, romance de Neil Gaiman, é uma obra redonda, um entretenimento que carrega o leitor para uma idade em que um livro te fazia avançar noite adentro em ondas de ansiedade pelo desfecho de cada capítulo.

A trama de intriga não esconde muitas surpresas que já não tenham sido usadas. Não importa. A trama serve para sustentar o que Gaiman faz de melhor, ou seja, criar personagens memoráveis, aos quais o leitor dedica empatia muito além do trivial.

O segredo de Gaiman é sua imaginação, de um lado, e, de outro, seu conhecimento enciclopédico de narrativas antigas e lendas assustadoras. Eu sou do tempo em que uma pessoa hiperativa se definia por sua imaginação borbulhante, e não pela capacidade de encher o saco das pessoas ao redor. Gaiman é um fóssil desta era de criatividade há tanto soterrada.

Londres é a protagonista real deste romance. Assim como Alan Moore estufa o peito ao narrar a história de sua cidade em A Voz do Fogo, Gaiman enche de encanto místico cada beco da capital do Reino Unido. Dá quase para ver Gaiman olhando para uma esquina, e imaginando um de seus personagens, ao mesmo tempo bizarros e banais, caminhando por ali.

Richard Mayhew é um herói clássico. Ele tem algo que o diferencia dos outros, mas este fator só se manifestará em um momento específico. Mayhew segue em sua jornada de auto-descobrimento, e a diferença de qualquer outro filme deste estilo é que a sua redenção se espalha por todo o enredo, e não apenas em um ápice culminante e emotivo. Em algum momento, você pode até comparar a trajetória de Mayhew à da Alice de Tim Burton, apenas para ter certeza de que Gaiman foi muito mais feliz.

Os vilões também são talhados no molde clássico. Entretanto, a peculiaridade dos senhores Croup e Vandemar diverte, mas nunca chega a encobrir sua intrincada crueldade. O altivo Islington é um vilão no outro extremo do espectro, pouco afeito a sujar suas delicadas mãos nas tarefas que seus planos exigem. Gaiman ama tanto seus vilões que não os mata. Eles ficam guardados em nosso imaginário, e Gaiman, claro, nunca mais deve usá-los. Seria quase como se os Smiths voltassem: horrível.

Faça um favor ao gurizão de doze anos que ainda mora aí dentro de ti, e leia este livro logo.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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