Christopher Nolan: Batman Rises

Christopher Nolan não filmará outro Batman. Por mais que este dê dinheiro. Trata-se de coerência, algo que eu espero de Nolan. Pressinto que seja esta também a mensagem que ele passa ao colocar Robin entrando na caverna do morcegão poucos instantes antes dos créditos irromperem na tela.

O terceiro Batman de Nolan fecha a trilogia de forma consistente, o que vai contra a minha expectativa de uma explosão final, uma erupção luminosa que deixaria o espaço adiante vazio pelos anos necessários para que outro cineasta chegasse para se aventurar.  Mas não. Bruce Wayne está cansado, só pede um motivo para deixar seu círculo estreito de problemas psicológicos.

Nolan explora bem a apelativa saga de Bane, um dos pontos baixos da carreira do super-herói, untando-a com as gloriosas passagens do gibi que redefiniu o super-herói nos anos oitenta, a obra genial de Frank Miller, quando ele não era a criatura patética que escreveu e desenhou bobagens auto-referentes como 300 e Sin City. O roteiro força a amizade ao forçar a amarração da saga de Ras Al Ghul, mas, diabos, é uma adaptação, e não uma transcrição cinematográfica para os doutores Sheldon e Leonard discutirem em frente a caixinhas de comida encomendada.

Quando ouvi falar em Mulher-Gato e Robin, confesso que tive uma leve síncope, eco distante das bobagens homéricas que a Warner fez com o morcegão no passado. Mas trata-se dos irmãos Nolan, e eles são magistrais na arte de compreender o universo de Batman, e transcrevê-lo para as telas. Ao menos quando se trata de personagens isolados.

Alfred, Fox e Gordon, obviamente, estão soberbos. É o mínimo que se espera contando os atores por trás dos papéis e o belo desenho deles no gibi. Robin é que me impressionou. As pistas surgem desde o começo, embora o policial possa parecer meio inverossímil. Logo ele cresce, demonstra aos poucos quem é. Pena, todavia, que ele não tenha se apresentado, no final da trama, como Dick Grayson.

E Anne Hathaway. Confesso que não apostaria nela, mas ela está perfeita. Sua Mulher-Gato é um felino nos contornos. Ela nunca se desenha por completo, antes foge das definições, se esgueira entre os conceitos claros e escuros. A gata é provocante, e sempre uma gata, distante da caricatura quase kitsch que Tim Burton colou em Michelle Pfeifer. Aliás, aqueles dois filmes fizeram muito mal, tanto para o Batman quanto para Tim Burton. Anne Hathaway, voltemos ao tópico, passou a concorrer consistentemente com Kate Beckinsale, minha musa de Underworld.

Tom Hardy, ator-fetiche de Nolan, mostra um Bane muito mais interessante do que o do gibi. O ponto baixo é, porém, outro ator que Nolan sempre tenta carregar consigo. Marion Cotillard interpreta um personagem-chave na trama, mas não consegue dosar o grau de canastrice como deveria personagens de gibi são difíceis, o ator precisa trazê-los constantemente da borda do ridículo, e Cotillard, infelizmente, não agüentou o tranco.

De resto, as coreografias de luta poderiam ser um pouco mais ousadas. O realismo conceitual de Nolan incomoda, em mais de um momento, o cinéfilo pipoqueiro que habita o meu ser. Aquela batalha campal de policiais contra bandidos com metralhadoras também ficou aquém do aceitável, mesmo em se tratando de gibis. Nolan foi tão bom quanto em seus dois filmes anteriores, filmou magistralmente. Entretanto, os filmes anteriores subiram muito a régua, e este terceiro não poderia ser apenas tão bom quanto o primeiro.

O fim da trilogia é uma boa notícia. Batman finalmente tem filmes ao nível de sua lenda, e Nolan pode voltar para as pranchetas, e, quem sabe, nos dar outro Grande Truque.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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