24.08.2012 Marcelo Camelo

Eu estava com preguiça de ver o Marcelo Camelo. Eu não ouvi os discos da carreira solo dele, e faz pouco tempo que o 4 finalmente encontrou seu caminho na minha discoteca craniana. A concorrência, impiedosa, também contribuiu para colocar o hermano para escanteio por uns tempos. Quando, uns tempos atrás, a Mari me perguntou sobre os ingressos, eu disse, como a barata Kafka, “sim”.

A apresentação, óbvio, foi intimista. Camelo e seu violão de náilon, e a ocasional intervenção da rabeca do gringo que aparenta contar três décadas além de sua idade real, eram visualmente pequenos no palco. A música, todavia, foi grande. Camelo demonstra domínio invejável do violão quase o tempo todo. Alguns trastejos, aparentemente involuntários, o deixaram fora da perfeição, que, presumo, nem seja o alvo.

Se musicalmente ele foi grandioso, o mesmo não se pode dizer das letras das novas canções. A carreira solo torna o artista alvo fácil da auto-indulgência, este demônio que os colegas de banda muitas vezes conseguem ajudar a combater. Suspeito que a vida de casado com uma fã novinha tenha colocado Camelo em uma zona de conforto, o que se reflete nas letras frouxas, nos temas preguiçosos. Apesar da maturidade ser uma fase complicada para o compositor, Camelo ainda pode dar a volta por cima neste aspecto.

Ele também pode cantar durante toda a apresentação, cantar mesmo, e não emitir aquele tom, feito com a boca, que caracteriza os registros fanhos de Chico Buarque e, um pouco mais abaixo na escala da maletice brasileira, aquilo que o Arnaldo Antunes insiste em fazer diante do microfone.

Palmas ainda para os criativos arranjos das canções velhas. Camelo explora suas novas habilidades com invenções e redescobertas. A rabeca ajuda em alguns pontos, e é desnecessária. O saldo é positivo, em geral. Houve mais de um momento em que Camelo alcançou sublimes patamares emocionais em sua execução, ou mesmo painéis abstratos encantadores.

O que Camelo não merece, e nem eu, é a platéia patética com suas câmeras espoucando flashes a cada dez segundos. As luzes das engenhocas explodiam contra as cadeiras, provavelmente gerando imagens ao nível da educação de quem empunhava as ditas maquinetas. Em seguida, acessos a Facebook, Twitter e FourSquare, tudo para mostrar ao mundo como a pessoa está se divertindo, oh. Há ainda os imbecis que se prestam a não assistir à apresentação, mas a filmá-la. Para que, minha gente?

***

Todas as fotografias deste texto foram feitas sem o uso de flash, conforme recomendado pela organização do evento e o senso de civilidade em eventos públicos deste tipo.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Música e marcado , , , . Guardar link permanente.

3 respostas para 24.08.2012 Marcelo Camelo

  1. mafra disse:

    concordo em quase tudo. texto bacana, show bonito e muita gente mal educada (faltou citar os que insistiam em conversar durante o show).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s