George Monbiot: A Era do Consenso

Roland Orzabal cantava, em oitenta e quebrados, sobre a vontade, natural no ser humano, de mudar o mundo. Certo, não era bem “mudar o mundo”, mas mandar nele; o fato é que o sujeito que luta pela mudança não raro é seguido pelo sujeito que deseja o poder. Tem vezes em que é o mesmo sujeito. Mas deixemos de lado quem busca o poder, pois este livro é sobre mudanças.

Dado o indivíduo que deseja a mudança, este acaba por envelhecer/amadurecer, adquirir uma barriga pouco invejável, se acomodando no sofá e ficando por isso mesmo. Pode até resmungar, mas seus diálogos resmungativos inevitavelmente acabam com o indivíduo declarando que é “Complicado”. A expressão normalmente vem acompanhada de um muxoxo e um levantar de ombros.

Existe algo fundamentalmente errado com o mundo. Esta é uma percepção intrínseca ao cotidiano, mas poucos se propõem a tentar descobrir o que efetivamente está incomodando. Há livros e livros que nos ajudam a entender nossa sociedade e suas agruras, mas não lembro de um que se proponha a hercúlea tarefa de mostrar soluções. George Monbiot, em A Era do Consenso, até que tenta.

De cara, Monbiot desanca, de forma exemplar, comunismo e anarquismo, modelos adorados por uma multidão de ingênuos, como opções viáveis para uma nova ordem mundial. Eu mesmo fui apaixonado pela idéia da anarquia, movido em parte pelos escritos de Oscar Wilde em A Alma do Homem sob o Socialismo. A bichona irlandesa pensava estar escrevendo sobre socialismo, mas seu livro trata de anarquismo, e eu achei tudo lindo. Até que comecei a pensar melhor sobre o assunto, e cheguei à conclusão que a anarquia, como modelo de governo ou falta-de, é o equivalente ao voto de protesto que a classe média deposita, digamos, no Tiririca.

Detonar o socialismo é o mais fácil. Os manifestos do século XIX já desenham este modelo como a “ditadura do proletariado”, e não exagero na declaração. Marx já antecipava as monstruosidades de Stálin, elas são necessárias para que o modelo funcione.

Se o socialismo não consegue resistir a se materializar como ditadura, a anarquia já está aí. Os países, se vistos como indivíduos em uma comunidade mundial, agem sem nenhum controle. Como canta Neil Hannon em Generation Sex, the poor protect the wealthy in this world. Como sói ocorrer em distopias futuristas pós-devastação, os fortes devoram ou escravizam os fracos, ou, como cantavam os Titãs quando vivos, cada um por si e deus contra todos.

Monbiot conclui que a democracia ainda é o melhor sistema para governar países, e, porque não, o mundo. A democracia, segundo ele, restou como um dos bastiões da resistência à globalização. A democracia, quando, existe, só consegue ir até as bordas do país. Fora das fronteiras dele é a terra sem lei, campos de batalha onde as nações ricas devoram os minguados rendimentos das nações pobres em nome de dívidas.

O livre-mercado, mais uma vez, é apresentado como uma cantilena encantatória das corporações a devorar os trabalhadores. Estes, por sua vez, lutam entre si pelo magro quinhão que lhes é destinado pelos ricos. É incrível como tem assalariado disposto a defender os direitos das corporações; encanto semelhante exerce a família real britânica, mas poucos percebem que é o mesmo feitiço que atinge os néscios que levam a sério uma palhaçada como foi a disputa entre Apple e Samsung pela patente do formato do canto do telefone esperto para usuários otários.

O livro é rápido, de leitura leve, então não vou me prolongar em descrições. Tu deves conseguir um volume desses fácil; eu consegui o meu num balaio da livraria Catarinense por dez pilas. Monbiot versa levemente sobre economia, explica o que muitos confundem quando se trata das idéias de John Maynard Keynes, recicla velhas idéias para velhos problemas.

A revolução que Monbiot conclama vai acontecer? Diz ele que basta uma moratória coordenada para que os países pobres ganhem a atenção dos ricos. Criar uma entidade paralela à OMC pode funcionar também, pois os grandões não conseguem brincar sem os pequenos. Os juros, reforça ele, são o elemento motriz do capitalismo assim como a maior falha do sistema, que só serve para acumular todo o dinheiro em torno de um pico cada vez mais estreito no topo da pirâmide.

No fim das contas, o que Monbiot faz é nos confrontar com nossa monumental preguiça de fazer alguma coisa. Como indivíduos, a dificuldade de sair da zona de conforto; afinal, quem disse que ser classe média é tão ruim assim? Entretanto, há sempre algo nos incomodando, senão a todos, a alguns, pelo menos. Enquanto isso, o Brasil suplica para lhe deixarem entrar na Casa Grande. Nem que seja para dar uma olhada; a gente jura que não quebra nenhum prato. Sério!

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Pedante e decadente, ao seu dispor.
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