Depeche Mode: Music For The Masses

Music for The Masses é um álbum que não envelhece. Produto do ápice criativo do Depeche Mode, gêmeo conceitual do seu sucessor Violator, o álbum de 1987 entrou em minha cabeça através da finada Musical FM.

Never Let Me Down Again é o tipo de canção que não cansa. Sua combinação perfeita de guitarras e pianos, associada à percussão precisa e eficaz, ainda me intriga. Foi ainda a canção que ilustrava brilhantemente uma cena, do seriado Anjos da Lei, em que um dos heróis, provavelmente vivido por Johnny Depp, se arriscava fazendo uma manobra que consistia em equilibrar-se entre dois carros em alta velocidade, um pé em cada carro.

The Things You Said pode parecer, logo em seguida, uma ducha de água fria, mas sua elegância aveludada é essencial para a dinâmica de momentos leves e pesados que fazem o álbum funcionar. A letra é econômica, trata de pequenos desentendimentos suburbanos.

Strangelove, com sua batida seca e seu riff poderoso, deixam-me contemporaneamente a imaginar como diabos se dançava na segunda metade dos anos oitenta. Sacred antecipa o mergulho conflituoso que Martin Gore e Dave Gahan fariam no universo de culpa e prazer e culpa e prazer e assim por diante católicos.

Little 15 é uma esquisitice pomposa, que demorou a adentrar meu gosto. Lembro de colegas, na época, comentarem sobre os discos de bandas de hard rock, como Deep Purple, com orquestra. Eram discos de rock com orquestra, apenas isso. Martin Gore, aqui, vai mais longe, abraça a música erudita com sua intuição, usa da influência de Philip Glass e de outros contemporâneos. Isso é pretensão, é risco, isto é rock de verdade.

Music For The Masses veio às minhas mãos em segunda mão. Minha cópia, em vinil, pertencia a um colega da oficina eletrônica onde eu estagiava na época. Os sulcos estavam bons, nada de ruído excessivo. A capa era dupla, sendo que a impressão da capa externa parecia texturizada. Coisas que já havíamos perdido na era do CD, e que a molecada do MP3 nunca terá.

Vinil tinha dois lados, e era em Little 15 que o lado A fechava. O lado B também fecharia com uma das pretensões eruditas de Gore, Pimpf. Esta realmente me tomou muito tempo para tornar-se palatável. O que não acontece com Behind The Wheel que, desculpem-me o trocadilho, desce redondíssima.

Nesta época o Depeche Mode era unha e carne com o fotógrafo/clipeiro Anton Corbijn, que fez uma série de vídeos para as músicas deste álbum. Tudo em P&B, esteticamente muito lindo, mas que, na prática, não conseguiu me encantar. Talvez tenha faltado a direção dos atores não-profissionais envolvidos, que não tinham realmente as manhas diante da câmera, pelo menos não o suficiente para uma empreitada de tal nível.

Gore chega a um dos seus pontos altos em produção ao se apropriar de gemidos e sussurros para fazer a base de I Want You Now. A idéia é óbvia, mas a execução demanda uma sutileza quase épica, e o resultado nesta faixa é soberbo. Ela cola com To Have and To Hold, que inicia com uma gravação do que parece ser um rádio-comunicador com alguém falando em russo. Os sintetizadores entram junto a sirenes em uma sinfonia apocalíptica, desembocando de súbito em Nothing. Delírio na multidão, que entra em resfriamento controlado na já citada Pimpf. Dentro da última faixa, há uma vinheta marota pontuada por alguns ruídos de ambiente.

A versão em CD é mais gordinha, talvez para compensar o fato do disco original ter apenas dez faixas. As quatro faixas são bem interessantes, mas não deixam de mostrar suas caras de lado B. Agent Orange é séria como um todo e melancólica em certas passagens, como o assunto pede. Imagens de bombardeios químicos no Vietnã da década de sessenta pipocam o tempo todo.

A percussão agressiva e futurista do Aggro Mix desfigura a faixa de abertura, reconhecível apenas em pequenos trechos. Esta versão passa por uma nova canção derivada da original. Vale também ouvir a versão estendida, de quase dez minutos, de Never Let Me Down Again, que não está presente neste disco, e que mistura elementos das versões original e Aggro.

A versão espanhola de To Have And To Hold é uma curiosidade divertida, uns pontos acima da bobinha Pleasure, Little Treasure. Ambas poderiam de fora sem maiores problemas.

Depois de vinte e cinco anos, Music For The Masses ainda é um clássico.

Always know the prospects
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Nothing

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para Depeche Mode: Music For The Masses

  1. marcelo disse:

    fique livre !!deixa as palavras rolarem e a fotografia aparecer!!

  2. marcelo disse:

    voce precisa escrever sobre ANTON CORBIJN FAZ SE NECESSARIO!!

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