Lucy O’Brien: Madonna 50 Anos

A história do indivíduo mediano no mundo ocidental a partir do início dos anos oitenta pode ser didaticamente expressa acompanhando os passos de Madonna Louise Veronica Ciccone. Sua ascensão ao topo do universo pop demonstra o principal mote da geração yuppie: qualquer um pode vencer, principalmente se pisar nas cabeças corretas enquanto baba os ovos certos.

Madonna é uma mulher trabalhadora. Mantém-se em forma de forma obsessiva, luta contra suas imensas limitações vocais, mantém a produção de todos os seus artefatos artísticos dentro de um controle intenso. O enfoque correto para se escrever sobre o lado mais admirável de Madonna seria o da HSM Management. Não é à toa que ela foi tema de uma reportagem da famosa revista de administração meses atrás.

A pessoa é humana, presa de todas as emoções e falhas que se possa esperar dela, sensação ampliada pela lente da fama absurda que a mulher. Madonna tem imenso poder, então qualquer dos seus movimentos, por mais sutis que sejam, impactam em uma fatia considerável da população mundial. Quando ela se associa à cabala, por mais bizarro que seja em diversas dimensões, ela carrega consigo um contingente fervoroso de seguidores.

Neste ponto a goiabice intensa do evento da adoção de um garoto africano toca em todas as cordas da hipocrisia. Como ressalta George Monbiot em seu A Era do Consenso, os países sub-desenvolvidos não precisam da ajuda que os países ricos lhes enviam. Este tipo de ajuda apenas estimula a corrupção que grassa nesses países.

O garoto africano deveria crescer em sua terra, com sua família, e seu país deveria ser liberado das práticas comerciais escorchantes que países como Estados Unidos e Inglaterra lhes impõem. O garoto deveria ter escolas, deveria ter uma chance em seu próprio país, e não virar o mascote de uma estrela pop com percepções totalmente rasas do que seja economia e história.

Curiosamente, Madonna é, ao longo do livro, louvada como uma grande leitora, capaz de entender até textos em hebraico. A biografia é especialmente feliz ao tornar crível uma mulher que, ao mesmo tempo, é amiga próxima de Stella McCartney, um ícone da proteção animal, e permitir que eventos de caça sejam feitos em sua propriedade.

Se algo ficou para mim deste livro, além da ampliação de minha coleção de factóides inúteis, foi a admiração pela peculiar capacidade de Madonna de se manter antenada com as tendências. Como comentei no começo deste texto, ela é um espelho em cada época que viveu. Madonna é tão rápida que não é possível saber se ela influencia sua era, ou é influenciada por ela. É uma habilidade fantástica a de perceber seu entorno, e se moldar, movendo-se de modo fluido e uno.

A habilidade falhou em mais de um momento, como quando ela lançou o fiasco em forma de livro de fotos nomeado Sex, mas isso é de menos: Madonna e sua problemática própria são bem maiores do que isso. Ela se conecta mesmo à picaretagem de que Francis Wheen fala em seu livro, e abraça a nova era em suas nuances mais bestas, assim como se empolga com a vida de plebéia admitida na realeza inglesa.

Todos estes deslizes, entretanto, tornam-se bobagens diante da despirocada de seu único concorrente real nos anos oitenta, Michael Jackson.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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