Muse: The 2nd Law

Este lance de compor o tema da Olimpíadas de Londres foi demais até mesmo para a cabeça naturalmente megalomaníaca de Matthew Bellamy. A canção é fraca, um pastiche pobre das aspirações operísticas de Bellamy, que já encarnaram em implementações mais consistentes. Ressalto que não estou dizendo que Survival seja uma música inadequada às Olimpíadas, trata-se justamente do contrário. As Olimpíadas são uma celebração dos fabricantes de artigos esportivos, e não do esporte. Sem ofensas a quem ainda se comove com este evento, mas é a verdade. Nada mais justo então que Bellamy componha uma canção redundante e enorme, uma imensa bolha de pretensões flutuantes.

Felizmente Survival está relativamente isolada, perdida dentro de The 2nd Law. Bellamy, mais uma vez, escreve um álbum com base em algum assunto relacionado à Física. Desta vez, o álbum versa sobre a segunda lei da termodinâmica, que postula que a energia de um sistema fechado é constante. Nada mais atual em tempos nos quais alguns de nós finalmente estão sacando que os recursos naturais do sistema Terra são limitados.

Musicalmente o Muse está saudavelmente buscando novas fronteiras. Mudar, entretanto, é um processo doloroso, e implica, muitas vezes, em soar como algum de seus ídolos. Madness e Panic Station, por exemplo, são descaradamente faixas do Queen na sua fase do início dos anos oitenta. Madness presta homenagem a I Want To Break Free, e Panic Station tem uma cara inconfundível de Another One Bites The Dust. O Muse efetivamente tem senso de humor, talvez involuntário. Animals, por sua vez, é puro Muse, e mostra um pouco de cansaço na fórmula. Mudar é bom.

O disco é bom. Não é fácil, mas é bom. Pode ser meio difícil engolir, de primeira, as pretensões cada vez mais infladas de Bellamy, ou baladas como Explorers, que remete a uma percepção curiosamente pomposa que o Muse parece ter das epopéias reclamonas de Morrissey. Big Freeze é uma animada canção que poderia ser um dos ápices de algum dos chatinhos discos recentes da trupe de Bono Vox; sua guitarra é empolgante e arejada, assim como o vocal de Bellamy.

Save Me e Liquid State, que fecham o bloco tradicional do disco, são cantadas pelo baixista e ex-pudim-de-cana Chris Wolstenholme. Ele soa muito parecido com Curt Smith ao microfone, e a canção é decalcada do Tears for Fears oitentista, mas sem o vocal grave do Roland Orzabal. Apropriado apropriar-se do estilo do Tears for Fears para falar sobre problemas pessoais. Orzabal deve estar resmungando. Para variar.

Como em The Resistance, o fechamento ocorre na forma de uma suíte conceitual de pretensão erudita. Desta vez são duas peças que pendem mais para o futurismo sci-fi do que para as salas de concerto. Versões destas canções seriam a escolha natural para abrir e fechar as apresentações do trio inglês. Ambas estão em alta rotação aqui na vitrola.

Noves fora, pule, ou releve, Survival, e temos um disco honesto e interessante de uma banda em sua maturidade. Não é para qualquer um.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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