Nick Cave: A Morte de Bunny Munro

A andropausa, diversamente da menopausa, pode ocorrer em uma faixa extremamente larga de idade. Há quem inicie o declínio de testosterona já aos 50 anos, e há quem tenha este hormônio bombando em seu corpo aos 80. Independente da idade em que a testosterona comece a desabar, há um curioso mecanismo de substituição deste hormônio real por um equivalente abstrato. Este fenômeno é particularmente notável em escritores.

Frank Miller é um deles. Sua fase mais medíocre acontece justamente com o decaimento da testosterona natural. Nesta fase, onde ele gestou irrelevâncias como 300 e Sin City, seus personagens tendem à caricatura, são machos hiperbólicos e unidimensionais. A estas máquinas truculentas geradoras de caras e bocas e frases de efeito são imputados, artificialmente, sentimentos piegas e rasos, na tentativa de criar, com o contraste, uma identificação do leitor.

Um livro batizado como “A Morte de Bunny Munro”, presumo, vai terminar cumprindo sua promessa, e Bunny Munro terá esticado as canelas antes da página final. O que não chega a ser um problema; embora M. Night Shyamalan tenha feito filmes interessantes, nem todo artista vive, necessariamente, à base de reviravoltas e surpresas. Há livros, filmes, gibis, entre outros artefatos culturais, que desprezam o fim, tratando com especial atenção o meio, ou o caminho que leva ao fim.

Nick Cave não é exatamente um romancista, e desconfio, tendo lido apenas parte deste único livro dele, que Cave esteja para seus romances assim como Madonna está para seus livros infantis. Há um especial frisson por conta do lançamento de um livro por parte de um cantor/compositor estabelecido, e ter expectativas altas, nesta ocasiões, não é saudável.

A escrita de Cave, que não chega a configurar um estilo, é correta, e poderia servir de base para diversos contos descompromissados, do tipo que você lê em revistas masculinas. Se a prosa apenas competente não encanta, qual seria o mérito deste livro?

Bunny Munro possui o que poderíamos chamar de “personalidade não muito legal”; na prática, Bunny é um babaca. Trepa com qualquer coisa que apareça pela frente, e sua mente está envolta em uma calda espessa de testosterona. Trata-se de um macho arquetípico caricaturizado, e o nome do protagonista, não deixa dúvidas sobre sua motivação primordial. Cave acerta ao tentar, com dificuldade, imparcialidade em relação ao caráter de seu personagem. Seria ingenuidade, entretanto, presumir que um personagem nasça de um autor, ainda por cima limitado, sem deixar seqüelas ou sem sair de algum lugar da psique de seu criador.

O que não vem ao caso, claro; o que importa é saber se o livro, enfim, é uma boa leitura. Creio que seja. Cave consegue prender a minha atenção, e registro uma consistente ansiedade em ler o próximo capítulo. Alguns livros servem para nos divertir, nos distrair, e nisso Cave consegue seu intento, deixando um rastro de considerações sociológicas a se discutir apenas embriagado em algum boteco. Enquanto isso, Bunny estará comendo alguma boceta em algum lugar, talvez perto da tua casa, mas cuidado, cuidado mesmo, tu deves ter com o sujeito do tridente.

O fim reserva redenção duvidosa a Bunny Munro. Tudo naquele palco final soa mais alucinação de um homem à beira da morte do que uma experiência paranormal do tipo espiritual. É uma opção do leitor, assim, dizer que Bunny foi, ou não, salvo.

Bunny Junior, entretanto, se beneficia, aparentemente, da quebra de uma tradição de monstruosidade comportamental. A ele é dada, pela experiência redentora com a mãe, a chance de se tornar um ser humano menos lamentável do que seu pai. Bunny pode ter se transformado num monstro por ter as ferramentas sedutoras para tal, mas é o pai dele quem o direciona. Bunny, assim como seu filho, só quer agradar a seu pai. Assim que a sombra de Bunny se esvai, há a chance de Bunny Junior possa, enfim, ter uma escolha.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Literatura e marcado , , , , , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Nick Cave: A Morte de Bunny Munro

  1. marcelo de almeida disse:

    Imagino uma mulher consultora jequiti trepando com todo mundo!! li o livro gilvan , daria um pessimo seriado . E quando a musica de cave onde voce se situa !! Tu gostas ?? Ja falou nele por aqui ??

    • gilvas disse:

      nick cave é um músico que só funciona conceitualmente para mim. gosto do conceito de nick cave, mas sua música me entedia, não me prende, não me comove. tenho uma relação semelhante com a música de outro medalhão cult, johnny cash.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s