Notas

Um de meus passatempos prediletos durante as fartas horas ociosas da adolescência era elucubrar sobre diversos assuntos. Entre as minhas teorias, conto a da correlação entre notas escolares de formato numérico com as de formato adjetivo.

Black Francis postulava, em um de seus hinos alternativos, sobre o fato de que, dado que o diabo é seis, deus conseqüentemente seria sete. O mais correto seria dizer que o gordinho do Pixies berrava sua teoria, mas o ponto é que eu filosofava sobre a correlação entre notas escolares.

Um 7 correspondia ao regular, por estar na média. Abaixo da média eu tenho um bloqueio de memória, provavelmente ocasionado pela diligente aplicação do cinto de meu pai nestas ocasiões. Voltemos ao espectro das notas que me faziam passar de ano, então.

8 era “bom”, tipo “você fez um pouco mais do que a obrigação, então não vou gastar mais de uma sílaba para te contar isso”. 10 era “excelente”, em consonância com pensamento de mais de um professor coveiro, que pensava que a nota máxima era para poucos escolhidos, o tipo de aluno que bebe vinagre na cruz e anda sobre as águas.

Todavia, o que realmente me colocava em apuros existenciais era o nove, o tal do “ótimo”. Os professores coveiros também concordariam, afinal aquelas turmas de lorpas diante deles só poderia chegar a isso, a 90% de aproveitamento das avaliações programadas. Não creio que alguém classificasse um 9 como “muito bom”, o que seria uma solução razoável para o assunto.

Anos mais tarde Thom Yorke resolveria tudo com sua canção Optimistic, do esquisitíssimo Kid A. Ótimo corresponde à preguiça, à molenguice de toda nova geração. The best you can is good enough.

A história repetida ecoa dezenas de velhos resmungando sobre os jovens preguiçosos que não serão capazes de manter o mundo quando os tais velhos se forem. Apesar de todas as gerações que foram alcunhadas como incompetentes, o mundo ainda está aqui. Talvez até um pouco melhor, talvez até mesmo bom, e quase com certeza ótimo. The best you can is good enough.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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