O que fazer em caso de incêndio

O título deste texto é homônimo ao de um filme alemão não muito antigo e que poderia ser mais do que interessante. Entretanto, eu e você sabemos que eu não vou falar de cinema, e nem de Alemanha. Vou falar de Brasil, de coisas que acontecem de verdade, aqui no lado.

Ou nem tão do lado. Hoje de manhã alguém me perguntou como havia sido “meu feriado na cidade em sítio”. Eu pude responder, sem hesitar, que foi normal. “Sou classe média, eu ando de carro”, essas coisas. “Sarcasm“, antes que alguém me apedreje.

Quero crer que a imprensa está tão confusa quanto eu. O que li nos jornais não é mais profundo que tenho lido em fêicebúquis pouco relevantes. Há quem pergunte porque cargas d’água não há reportagens sobre o assunto, porque não há quem se aprofunde nesta lama; olha, dava até um Pulitzer local, se duvidar.

Doce ilusão. Não há reportagens porque não há imprensa. Os jornalecos locais se acostumaram a divulgar a agenda que recebem dos assessores de imprensa de espetáculos, empresas, instituições. No rastro de fraudes como nosso colunista jovem do DC, pululam publicações chapa-branca que não convém classificar como “jornalismo”.

Por falta de reportagem, desconheço as reais motivações da bandidagem. As notícias se esmeram a falar do modus operandi. Se não fosse trágico, seria admirável. Os malacos invadem os latões, dominam motorista, cobrador e passageiros. Espalham a gasolina enquanto retiram os civis, deixam para acender com o ônibus vazio, ou quase.

Desenvolveram, talvez sem intenção, um terror genuíno e poderoso. Aos olhos das vítimas, não são guerrilheiros, mas representantes da situação. São eles que mandam. Não se trata de furtivamente jogar um coquetel molotov para dentro de um ônibus em movimento, não. Eles param um ônibus, dominam as pessoas, discursam, espalham o combustível, possivelmente com maneirismos de vilão de filme ianque de ação. Existe uma estética no terror causado por estes incêndios, o que faz o terror ser mais efetivo. A percepção é a de ação de crime organizado, mais organizado do que a maior parte das instituições que você conhece.

A existência de uma estética, se confirmada, aponta para um design das ações. Eles atacam apenas serviços que a população menos remediada utiliza, não queimam lanchas, queimam ônibus. Eu não soube de lojas de madame vandalizadas, mas apenas de creches. Provavelmente porque a segurança de ônibus e creches é bem menos eficiente do que a de uma loja em Jurerê, ou o efeito menor do que colocar fogo em um Tucson.

Por outro lado, é doído, como meu amigo Jean Mafra apontou, ouvir a reação de vizinhos e camaradas. O lugar-comum é falar de “morte para os bandidos”, “bandido bom = morto”, frases fáceis, repetidas há tanto tempo que só me provocam bocejos e uma preguiça enorme pela humanidade.

Há quem cometa a obtusidade de falar em por exército na rua, demonstrando desconhecimento sobre o básico do funcionamento das forças armadas. Sujeito acha que é só ligar para os fardados, e eles vão chegar, dar “um corridão nos malacos”, tapinha nas costas, e “até mais”. Desconhecem o que seja um toque de recolher, o que é uma operação militar, o que seja o treinamento militar. Para esses néscios, envio um sonoro “cale-a-boca”.

Esta situação precisa de estudo, de investigação. Truculência é uma carta que só deve ser usada bem mais adiante, caso os meios civi(lizado)s não resolvam. Exército é treinado para matar, para confrontar inimigos, e não para agir como polícia. Por mais incompetente e mal-aparelhada que nossa polícia possa se encontrar.

***

Ironias brotam, questionamentos sobre nosso modo de vida e nossas escolhas tecnológicas. Se já estivéssemos na era dos carros elétricos, a bateria ou a hidrogênio, não haveria tanta gasolina para encher as garrafas recicláveis PET dos nossos bandidos. Este combustível seria de uso restrito, e facilmente rastreável. Outros materiais poderiam ser utilizados, mas ainda assim seriam bem mais rastreáveis do que gasolina. Hoje é capaz de alguém encher uma garrafa PET de gasolina para um dos meus gatos se ele aparecer com dez pilas na mão, quero dizer, na patinha.

Antes de terminar, vale ressaltar que esta gasolina toda está sendo comprada com o dinheiro que o gurizão surfistão classe-média entrega no pé do morro em troca de uma trouxinha de erva ou de farinha. Ou com o dinheiro da mocinha indie-1007, tanto faz. A questão, eu sei, é mais complicada do que isto, mas o dinheiro é este mesmo, e quem paga ao traficante está fazendo sua parte, girando as engrenagens sujas que derramam a gasolina dentro do ônibus do trabalhador.

Ou até do seu próprio.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para O que fazer em caso de incêndio

  1. Florip disse:

    Tenho uma opinião diferente. Não quis focar a droga, mas a cultura que impede agente de ter uma discussão saudável, aliás a politicagem também está na raiz da criminalização delas.
    Sociologia eu não entendo bulhufas. As lacunas são deixadas pelos nossos gestores e legisladores, ali está o verdadeiro problema.
    Acho realmente incoerente saber que se eu matar 1000 pessoas, o estado vai me dar a mesma punição que se eu tivesse matado 5-10. Que jamais o estado vai tirar a minha vida, ou sequer me prender pra sempre, isso estimula que se cometa crimes mais graves e quem afirma isso não sou eu, é o juiz federal que vive na prisão do trabalho dele. Penas mais duras sim, mas não é o que vai realmente resolver, não quero afirmar isso. A solução está na mão da gestão publica e do legislativo que só trabalha em causa própria.

  2. Floripa. Ta na hora de mudar o Brasil disse:

    Sapateou, sapateou e não saiu do lugar… desse jeito fica difícil ganhar o premio! Começou bem, criticou a mídia, levantou dúvidas sobre o direcionamento dos alvos, mas não chegou no finalmente, concordo dizer que o nosso modo de vida favorece as ações terroristas, mas acho leviano entrar no assunto da droga dessa forma tão superficial, com esse argumento do Capitão Nascimento. O surfista também pode ser o trabalhador que está no ônibus, o maconheiro muitas vezes não é surfista e o próprio surfista pode ser contra a relvinha, esse universo paralelo é muito diversificado, o que é mais saudável do que arroz com feijão. Aliás, vários posts imbecis trazem essa afirmação no famigerado “Feice”.. Vc financia tudo isso.. bla bla bla.
    Sei que as eleições já passaram, mas daqui a pouco tem outra e porque não deixar bem claro que a culpa mesmo é desses pilantras que estão no poder?
    O que agente vive hj em todo o Brasil é consequência de um ciclo vicioso e como ciclo não tem inicio, meio ou fim, mas tem 1 elo fraco, o risco do disco, que faz as coisas permanecerem estagnadas.
    Vou falar desse ciclo. O legislativo cria leis: a polícia executa, o judiciário sentencia e… os caras voltam pra rua cada vez mais rápido. Dai alguém fala que “falta polícia”, ou “o juiz soltou o cara”, mas de quem é a culpa? Esses caras que estão agindo em SC assim como em SP, a maioria já é fichado, ou seja, a polícia já atuou sobre eles e a justiça tb! Pq eles tão na rua? Quem fez as leis? Se falta vagas a culpa é de quem, da polícia? da Justiça?
    Agora vamos ver o outro ciclo paralelo: Falta assistência à saúde, à educação, à cultura.. decisões que depende do executivo “político” e do legislativo, mas nada se resolve jamais, sempre pequenas medidas muito menores do que o aumento de demanda, coisas pra inglês ver. Mas quem elege esses caras somos nós! Nós??? Não mesmo! Pensa comigo, alguém foi na tua casa oferecer “apoio” para ter o seu voto?? Não e nem na casa nenhum amigo meu… Mas vc tem alguma dúvida q nas últimas eleições ocorreu uma compra de votos absurda?? Se tem, vou t sugerir uma coisa: Converse com as pessoas nas comunidades carentes e converse tb com os candidatos que não tinham recursos, pra saber o que eles conseguiram. Já viajei esse Brasil de Norte a Sul, de Leste a Oeste, qualquer político sabe, quem decide a eleição não é a elite culta, mas sim o povo carente. Você vai lá comunidade, aperta mão, é carismático, dá um beijo nas dona de casa, um abraço, depois um assessor vai lá e oferece alguma coisa ($), já era… palavras de ex-candidato, ex-secretário, em fim, político profissional. É pra essas pessoas que a campanha é direcionada, não pra nós, nosso voto é normalmente mais criterioso e normalmente não se influencia por esse cari$ma, agente quer ver resultado. Dai agente volta pro inicio do ciclo: A quem interessa resolver todos os problemas sociais? Não aos politicos que foram eleitos dessa forma! Pessoas que carecem de tudo são rebanhos eleitorais!
    Esse ciclo existem em todas as esferas da nossa vida. Veja o exemplo da Izadora que criou o Diário de Classe: a diretora da escola é contra ela, os professores, até os colegas são contra ela. E veja que ela conseguiu varias melhorias dentro da escola, inclusive a reabertura da APP. Vou deixar mais claro. A diretora não cumpria suas responsabilidade. Os pais que deveriam fiscaliza eram ausentes, os professores dançavam a mesma valsa. Professor dando aula de baixa qualidade e ganhando o seu garantido, nenhum compromisso com a qualidade. Alunos folgados vivendo do jeito que queriam, sem cobranças e toda a liberdade, inclusive pra depredar a escola. Alunos sérios, insatisfeitos, pq sabem que os mais prejudicados são eles. A Aluna cobrou, e cobrou bonito, mostrou pro mundo inteiro ver. Professor teve que dar aula de verdade, teve inclusive afastamentos. Funcionários tiveram que trabalhar de verdade e a diretora segurou o mico. Situações precárias foram sanadas, portas novas, maçanetas, pintura, entre outros.. mas, devido a cobrança, ela, que deveria ser idolatrada, foi rechaçada pois a maioria dos que se manifestam lá, queiram mesmo era viver naquela bosta de antes. Não bastasse isso, um dos prestadores de serviço da escola foi cobrado e partiu pra agressão física. Lastimável, pois a diretora da escola é macumunada com o cara que recebe e não executa o trabalho.
    No fundo a pior cultura brasileira, (que tem uma raiz carioca, qm sabe), a coisa do malandro, do esperto e do jeitinho brasileiro. Enquanto agente tiver malandro eleito, malandro em cargos de confiança, malandros diretores de escola, enquanto jeitinho for coisa de esperto (pra mim é coisa de boiola, sem preconceitos), agente vai continuar vendo malandro dominando as ruas e pessoas honestas presas no seu medo e na sua insegurança e financiando toda essa farra, não com drogas, mas com impostos mesmo, esse é o verdadeiro financiamento.
    Na minha opinião devemos promover campanha pró honestidade, ações contra a compra/venda de votos de cidadãos, extinguir a obrigatoriedade do voto e quiza instituir a pena de morte para esses terroristas.

    • gilvas disse:

      negar que a compra de droga pela classe média financia, sim, e é, sim, pelo menos parte do problema ajuda em alguma coisa? não ajuda. é uma verdade desconfortável e de difícil mudança. aí tu pensas “pou, está difícil resolver esta, não tem uma mais fácil, não?”. ou mais abstrata, para virar papinho de sociólogo e ficar por isto mesmo.

      interessante desqualificares uma afirmação do “capitão nascimento”, e terminar teu texto com outra afirmação ainda mais reacionária, uma apologia à pena de morte. incoerente, não?

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