Diversos: Cloud Atlas

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Cloud Atlas é um título maravilhoso para um épico como o esforço conjunto dos irmãos Wachowski e Tom Tykwer se propõe a ser. A tradução do título para o português, entretanto, é mais um daqueles abusos a que obras estrangeiras sofrem nas mãos das distribuidoras brasileiras.

A Viagem é um título oportunista, dado que o filme trabalha com o que poderia ser reconhecido como encarnações dentro de um viés espírita. Não sou um especialista, e nem seria necessário pois, caso se confirmasse a minha suspeita, o filme seria homônimo de uma novela global, de mais de dez anos atrás, que deu ignição à onda de opéras de sabão pretensamente espíritas.

CLOUD ATLAS

A mão dos Wachowski se faz sentir de imediato na amplidão de assuntos, e também na abertura com que os assuntos são tratados na película. Como em Matrix, onde seguidores de diversas religiões sentiam que o filme se referia a seus ídolos, em Cloud Atlas o espectador pode puxar a brasa para sua sardinha com facilidade. Há quem possa chamar de oportunismo comercial, mas eu prefiro pensar que se trata de abertura de pensamento.

Há diversas narrativas intercaladas, que resultam de modo feliz em um todo que é maior do que as partes. Os arquétipos se repetem com variações salutares, que acrescentam camadas e interpretações. Dois dos personagens de Tom Hanks são escroques, por exemplo, mas são oportunidades e profundidades distintas. O entrelaçamento entre as eras é fluido e, em algumas partes, tênue. É um filme que não embarca em hermetismos silenciosos, mas também não se entrega a esquematismos irritantes.

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Ao ver o trailer, morri de medo de Hanks ferrar com tudo. A idade não parecia estar fazendo bem a ele, pelo menos no aspecto da capacidade interpretativa, e eu sempre o considerei um ator limitado. Ele continua sendo, por sinal, um ator de recursos escassos, mas a mão firme dos diretores o conduz por uma linha estreita, embora Hanks passe perto do limiar em mais de uma cena.

O filme impressiona pela dimensão da empreitada. As diversas histórias, a saber:

– Um thriller de jornalismo investigativo;
– Um drama policial envolvendo envenenamento e abolicionismo;
– Uma ficção científica onde a realidade perfeita está embasada em escravidão e horror protéico;
– Uma comédia burlesca com pinceladas kafkianas em torno de um editor fracassado e patético;
– Uma história de amor, preconceito e música erudita;
– Outra ficção científica, uma distopia onde a civilização luta por uma mínima esperança entre as trevas.

Cada conjunto de histórias tem diretores distintos. Esta inteligente abordagem viabiliza a idéia, e também deixa o espectador respirar o suficiente para sobreviver às quase três horas de filme. Necessárias, diga-se de passagem. O filme não tem cenas inúteis, como observamos previamente em um certo nerd de locadora que muitos acreditam ser um diretor de cinema. Relevante, ainda por cima. É, vivemos em uma era triste.

Sou fã de Tom Tykwer, e não necessariamente dos irmãos Wachowski, e Cloud Atlas não me decepcionou, como eu receava. E tinha tanto coisa para dar errado. O que fez as coisas funcionarem, além da competência dos diretores, foi a correta dose dos assuntos intrigantes. Feminismo, escravidão, liberdade, religião, dogmas, amor, preconceito, alimentação, tudo entra no liqüificador. Eu não diria que o filme tenha me colocado a refletir; Cloud Atlas é um entretenimento sadio e, ouso dizer, inteligente. Ou, pelo menos, muito mais inteligente do que a média do que muitos diretores cheios de estrelas têm feito ultimamente.

Cloud Atlas, suspeito, celebra uma segunda quebra de paradigmas, tanto para Tykwer quanto para os Wachowski. Um teve seu ápice em Corra, Lola, Corra, e os segundos explodiram no mundo com Matrix, que poderia ser um filme muito mais feliz se não tivesse recebido suas descartáveis continuações. Fico pensando que eles poderiam, daqui a dez anos e poucos, chamar o Chistopher Nolan, e fazer outro épico, ainda mais encantador. Mas, por ora, já está bom demais.

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Outro aspecto peculiar, que é notavelmente o ponto central entre todas as narrativas, é a esperança em mundo melhor. Na contra-corrente do niilismo reinante, Cloud Atlas costura uma mensagem de que as pessoas devem lutar por seus sonhos, por suas causas. As encruzilhadas existem, e elas exigem coragem e sacrifício. A beleza, a liberdade, a democracia, a verdade verdadeira, nossa humanidade exige ativismo e não-conformidade. Cloud Atlas prega esta mensagem de forma poética e pungente, escapando habilmente da pieguice. Sem 3D e sem truques. Apenas o bom e velho cinema.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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