Iva Davies & Icehouse: The Berlin Tapes

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Iva Davies é o líder da banda australiana Icehouse, que assolou as rádios FM do Brasil, em meados dos anos oitenta, com canções como No Promises e Crazy. Eu gostava na época, passei a ter vergonha deles em seguida, e hoje aprecio discretamente seus discos, que, em mais de um momento, resvalam para uma cafonália embaraçosa.

Que surpresa então foi este The Berlin Tapes. Nada de saxofone, nada de solos duvidosos. O mullet monstruoso continua lá, assim como a cara de Fagundes, aquele eterno olhar de “você pode não saber ainda, mas eu vou te comer”. Davies é assim, não adianta. O lado bom é que a voz dele continua excelente. O registro vocal é similar ao de Morten Harket, do A-ha, recheado de inflexões calorosas.

Este disco é resultado de um trabalho de Davies com um espetáculo. Todas as faixas são versões de artistas que influenciaram o Icehouse. As releituras são de extremo bom gosto, fogem do som plastificado típico da banda, e adentram um território quase acústico, similar às releituras de Duncan Sheik em seu disco em homenagem aos anos oitenta.

Berlin Tapes está longe de ser perfeito, mas poderia ser, se fosse resumido às três primeiras faixas. A culpa é de Davies, claro, mas se trata menos da capacidade musical dele do que da sua percepção de repertório. Complicated Game, do XTC, é muito chata, assim como a pomposa e auto-indulgente Disappointed, dos malas Simple Minds.

O disco inicia com Bowie, visivelmente a influência mais marcante no DNA musical de Davies. Loving The Alien, a original, é um pop sintético que trai o aspecto épico da letra excelente. O vídeo da canção original piora tudo, e sugiro que não seja visto. O excesso de teatralidade de Bowie me incomoda deveras.

A versão de Davies se baseia na que Bowie apresentou na turnê de 2003, acústica. Aqui, sua introdução é feita em um piano acústico, seguido de violão, baixo e violoncelo. Davies balanceia o tom épica com a melancolia que evoca a imbecilidade dos conflitos religiosos. Ele sabe dosar os vôos que a indignação impotente inspira, e os pianos reforçam sua resignação com dignidade.

Solene também é Sister Europe, a segunda faixa. Ela adentra o pavilhão de cada ouvido como o enviado de dinastias antigas, o piano revoando ao longe em manobras sutis. A leitura é melancólica, como se deve esperar de uma letra que fala da decadência de costumes na outrora grandiosa Europa. O tom de Davies transpira perda e tragédia.

David Byrne é um cara irreverente. É curioso ver sua canção Heaven transcrita nesta versão monumental, intensa em texturas nebulosas. O violoncelo sublinha a beleza das imagens de Byrne na voz algo superior de Davies. É uma versão comovente e cuidadosa.

O disco ainda tem outras faixas interessantes, como o surrado cavalo de batalha All Tomorrow’s Parties, a tensa e desolada Love Like Blood, do Killing Joke, ou a grata surpresa At Night, do segundo disco do The Cure, que respira aliviada em uma arranjo muito menos seco do que aquele que estava em voga nos círculos coldwave que emergiam do pós-punk nos idos de 1980; Davies soa tão isolado e esquecido quanto Bob Smith, mas sem a nota de arrogância espinhenta que este emitia no clássico oitentista.

Num disco de altos e baixos, a maior decepção é outro hino regravado à exaustão. Heroes é a última faixa, e se justifica aqui por conta de The Berlin Tapes ser uma trilha para um espetáculo. Não há o que acrescentar a Heroes, uma canção de apelo imediato, que não possui os recônditos necessários para que o bom intérprete brilhe.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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