Crocância

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O conceito de crocância é algo que atribuo aos jovens, ciosos que estão em quebrar, mesmo que metaforicamente, coisas. Meu dentista garantiu-me que, fisiologicamente, os dentes são uma exceção no inevitável processo de degradação do corpo humano; quanto mais eu mastigar, principalmente alimentos fibrosos, melhores os meus dentes ficarão.

O que é fácil para mim. Adoro granola e biscoitos integrais. Entretanto, o que me atrai é a sensação de mastigação das fibras, e não a que emana da quebra do biscoito ou do grão em si. Assim, a granola do café da manhã fica no suco alguns minutos para tornar-se uma papa como a que Neo come em sua vida real fora da Matrix. O biscoito fica melhor no dia seguinte, quando dialoga melhor com minhas mordidas. Coisas de velho, dirão.

Na natureza, a crocância é a exceção; ela só abunda no mundo plastificado e metalizado dos supermercados, em bolachas que esbanjam glúten processado e ressecado. Nas frutas, o que há, raramente, é a maçã pedindo aquela mordida vigorosa para romper suas entranhas plenas de promessas de doçura. Muito melhor do que uma torrada com cantos vivos para atingir o céu da sua boca, não?

A gaseificação é outra bizarrice exclusivamente humana. Algum publicitário sádico deve ter pensado, em algum momento da história humana, que o ser humano poderia ser convencido a apreciar líqüidos com bolhas de gás carbônico injetadas. Pensou certo, porque o mundo todo ama uma Coca-Cola, e não apresenta o mesmo entusiasmo quando o supracitado refrigerante passou mais de um dia na geladeira. Ouvi dizer que o gás serve para esconder o excesso de açúcar no refrigerante. Olha, é uma teoria tão cruel que só pode ser verdade.

Bolhas de gás surgem em processos naturais, mas é difícil encontrar tais processos concentrados na ordem de grandeza em que se encontram em certas bebidas engarrafadas. Águas termais, cumbucas naturais onde caiam frutas em água, será? Onde mais se encontraria líqüido gaseificado na natureza?

As coisas não andam bem, e as indicações estão por aí, soltas no alimento e na bebida do cotidiano.

***

“Crocância” é uma palavra que provavelmente não existe. Só para constar.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para Crocância

  1. Valentina Andrea disse:

    Lindo texto! Lindo! Parabéns! Só uma coisinha: parece que a palavra crocância existe sim, segundo o dicionarioegramatica.com.br a palavra já existe em dicionários inclusive do Houaiss e o site também mostra como a palavra já é usada em artigos profissionais há mais de duas décadas.
    Lindo texto, beijo!

  2. Valentina Andrea disse:

    Lindo texto!

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