Michel Houellebecq: Partículas Elementares

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Partículas Elementares, o livro, é muito superior ao homônimo cinematográfico alemão. Não se trata de uma incompatibilidade de discurso entre mídias ou de uma defesa romântica da mídia escrita como precursora da visual, mas de uma diferença crucial na forma de organizar os conteúdos.

O diretor alemão deve ter pensado em reorganizar as seqüências dos flashbacks de Bruno, principalmente, e Michel, mas a divisão original, a do livro, triunfa no quesito organicidade. A misoginia de Bruno e o isolamento de Michel funcionam consistentemente no livro; no filme, estas características pouco elogiosas trombam-se a todo momento, causando um desconforto insistente.

Partículas Elementares transborda de sexo e academicismo. Jorros de esperma abundam, e é de admirar que as páginas não venham grudadas diretamente da editora. As análises de livros, como Admirável Mundo Novo, e de suas correlações com os estudos da biologia, revelam-se interessantes tópicos para prolongar em conversas de bar, contemporâneas, ainda que guardando distância segura da vala comum da cultura pop. Salman Rushdie, em seu eletrizante A Fúria, volta e meia se perde no excesso de citações de ídolos da matinê atual, meio passo dado para dentro de um potencial inferno datado.

Houellebecq também desnuda seus pecados. A espinhal dorsal de Partículas Elementares é a seqüência fracasso, redenção e perda de Bruno; Michel, uma versão mais realista do louva-deus mais famoso do mundo seriado, Sheldon Cooper, é apenas um coadjuvante. Estrutural, claro, mas ainda assim um coadjuvante. Plataforma, seu livro seguinte, é desenhado sobre estrutura idêntica, embora o romance se desenvolva com elementos e paisagens distintas. Talvez cada escritor realmente tenha apenas um romance dentro de si, e esteja destinado a carimbar a mesma carcaça em tudo o que escreve. Por este ponto de vista, Houellebecq pode ser acusado apenas de descuidar da maquiagem da sua criatura.

Ainda que passível de críticas, é inegável que Houellebecq seja um dos melhores cronistas da sua geração. Se a matéria-prima da escrita de Updike, por exemplo, é a dissolução do núcleo familiar no subúrbio norte-americano, Houellebecq se esbalda no individualismo noventista para extrair sua literatura da solidão imensa que preenche as ruas, os apartamentos e os escritórios do mundo consumista.

Seu fraseado, sintomaticamente, evita as circunvoluções poéticas do Updike acima citado; o ser humano contemporâneo não tem tempo para apreciar a paisagem. A vida, desta criatura hipotética, se resume a lamber feridas imaginárias, lamentando-se, imerso num imenso oceano de possibilidades que nunca se concretizam.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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