De Esmaltes e Saltos Altos

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A mulher é um dos alvos preferenciais do marketing há eras, assim como o homem, mais recentemente. A indústria da beleza capitaneia estes esforços de lavagem cerebral em larga escala, e é curioso que sejam as fêmeas humanas a se enfeitarem, enquanto o reino animal mostra que a exuberância, muitas vezes de gosto duvidoso, evoluiu mais nos machos. O que não vem ao caso no texto de hoje.

Julio Verne me impressionou com uma das minhas primeiras percepções sociológicas, lá pelos idos de oitenta e pouco. Eu lia Tribulações de um Chinês na China, meu predileto dele, e Verne fazia a descrição de um nobre chinês no século XIX.

O que mais me marcou foram as longas unhas do tal nobre. Elas se constituíam no seu principal diferencial de nobreza. Assim como o personagem de Eddie Murphy, o nobre chinês não fazia nada. Ele tinha serviçais para todas as suas necessidades, mesmo as mais banais, como se alimentar ou fazer a higiene do pênis real.

As unhas não eram apenas longas, elas eram bizarramente longas, como as do mais falado do que assistido Zé do Caixão, por exemplo. As unhas significavam que ele não precisa usar seus dedos reais para nada.

Estes símbolos de diferenciação da nobreza em relação ao populacho foram se transformando ao longo das eras. A patuléia, por sua vez, sempre tentou imitar os trejeitos dos macacos líderes. Sabe, para ver se eram confundidos com a alta classe e conseguiam uma boca livre de vez em quando.

Estas imitações, quase sempre, desabavam no ridículo, no patético imperdoável. Cansei de ver as moças trabalhadoras, depois da faina semanal como faxineiras, debruçarem-se sobre o balcão da farmácia com as cutículas empurradas brutalmente, inflamadas ou mesmo tomadas de algum fungo oportunista.

Sempre tive uma baita angústia de ver cutículas retiradas. Se a evolução as colocou na fronteira entre a pele e a unha, sua existência deve fazer algum sentido. As cutículas funcionam como uma vedação nesta interface entre materiais distintos, e nos protegem.

A besteira cosmética, entretanto, acha isto besteira. Além de arrancar as inocentes e úteis cutículas, recobre as unhas de esmalte, que impede a livre circulação porosa da unha para o ambiente exterior, aprisionando umidade, e, mais uma vez, dando oportunidades maravilhosas para o crescimento de fungos.

Unhas longas e coloridas, entretanto, são símbolos de que a sua portadora, ou portador, não executa trabalhos braçais. Ou seja, trata-se de alguém elevado acima da rafuagem que toma conta do mundo.

No ambiente de trabalho, é comum vermos as mulheres sendo vítimas de monstruosos saltos. A motivação inicial seria ressaltar a panturrilha. Com isto, a fêmea, num ambiente ancestral, mostra um sintoma de juventude, que é a firmeza muscular desta parte do corpo. Este estratagema se soma a outros, notadamente de vestuário, que visam reduzir cinturas, ampliar tórax e traseiro, e por aí vai.

O salto alto, na selva ancestral, diria, como diz a cauda espalhafatosa de um pavão, que aquele ser é tão poderoso que não precisa se preocupar em correr. Estas plataformas elevadas ainda falam sobre o excedente de recursos, dado que detonam as costas das usuárias.

Entretanto, na selva do escritório, o salto alto serve à diferenciação social. Mulheres que usam sapato alto não precisam fazer esforço físico, ou mesmo caminhar muito. Tanto que às moças da faxina é indicado que usem botinas ortopédicas com amortecimento, ou sua via útil será muito reduzida.

Algo que me ocorre é que o sapato alto também é um instrumento do machismo para reduzir as chances da mulher ser bem sucedida no ambiente de trabalho corporativo. Enquanto a mulher gasta parte da sua concentração e esforço físico para se manter em cima de um pisante de formas absurdas, os machos circulam instalados em confortáveis sapatos com tacão perfeitamente anatômico.

Unhas feitas e sapatos altos são apenas dois dos absurdos da estética atual impõe às mulheres. Daqui a séculos, espero, eles serão considerados tão ridículos quanto as librés e as faces cobertas de pó de arroz que abundavam no século XVIII. Ou tão ridículos quanto aquelas botinhas ortopédicas que entraram na moda no final de 2013. A parte triste é que haverão novas modas, talvez piores, e sempre haverá alguém para segui-las.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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