The Divine Comedy: Regeneration

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Neil Hannon é um cara sério. Ele já foi um cara muito sério em Fin de Siecle, mas é em Regeneration que o músico irlandês se mostra mais sisudo. Pudera, estava trabalhando com Nigel Godrich, na época, 1999, um produtor coroado de louros por seu primeiro trabalho com o Radiohead. OK COmputer foi considerado “o primeiro disco do século XXI”, mesmo tendo sido lançado em 1997, e Godrich tornou-se o produtor desejado por qualquer um que quisesse dar um passo adiante em sua carreira.

Hannon vinha de seu sombrio Fin de Siecle, uma depuração austera de sua criação anterior. Como Krishnamurti diz, “não se constrói uma casa nova a partir de tijolos velhos”, e o indiano não está falando contra a reciclagem, mas apenas reciclando o ditado “não se pode ensinar truques novos a um cachorro velho”. Hannon enxerga em Godrich um passaporte para o rock que vai sobreviver aos rigores da virada do século.

O Divine Comedy torna-se, então, uma banda indie, e não mais a persona artística de Hannon. Ele deixa de estampar, com sua indefectível e engraçada cara, a capa do álbum. Os excessos são aplainados, e o estilo musical é o rock. Sofisticado, com dezenas de acordes cabeludos e timbres inovadores, mas ainda é rock, e não o diorama de influências díspares que sempre caracterizou o trabalho de Hannon.

Talvez tenha sido o casamento que tenha tornado Hannon tão sombrio. Ou o fato de ter entrado para o elenco de uma grande gravadora. Como em uma segunda onda de adolescência, ele deixa o cabelo crescer, e passa a observar o mundo sob uma ótica sombria. Os resmungos envolvem os mesmos assuntos sobre os quais um garoto espinhento movido a Nietzsche falaria: hipocrisia, mediocridade, religião, o passar do tempo, feminismo…

Entretanto, trata-se de um homem adulto. O que pode soar um pouco constrangedor, claro, mas rende bons momentos, desde que apreciados com o clima correto. Comecei a ouvir este disco na mesma época em que estava lendo Crime e Castigo. Tive de parar o livro na metade, para retomar uma semana depois, tamanha a pressão psicológica que estes dois artefatos culturas jogam sobre o leitor/ouvinte.

Hannon voltaria a ser o fanfarrão divertido, o cronista de costumes folgazão, o cunhador de epigramas notáveis, talvez não totalmente em Absent Friends, mas sim em Victory For The Comic Muse. O retorno, todavia, tem um travo amargo de cinismo. Hannon, na verdade e no âmago, enveredou pelo caminho para o qual Regeneration apontava. Ele segue naquele limbo severo, esfolado como os personagens que percorrem a capa do disco em questão.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para The Divine Comedy: Regeneration

  1. marcelo disse:

    qual cd que tem a musica booklovers??

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