Brian Greene: O Universo Elegante

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O livro de Brian Greene é sobre “supercordas, dimensões ocultas e a busca da teoria definitiva”; este texto, não. Este volume passou alguns anos parado na minha prateleira de livros por ler. De certa forma, devido ao conteúdo cabeludíssimo.

Greene é um bom professor, consegue descascar abacaxis espinhudos, como as teorias da Relatividade, deixando parte substancial da polpa a ser apreciada. Ainda assim, meu lado realista confirma apenas cerca de 20% de aproveitamento do conteúdo. Em suma, vou ter de ler de novo. Quando tiver uma folga. Provavelmente depois de me aposentar.

Portanto, discorrer sobre o conteúdo, física de ponta e as explicações para os mistérios profundos do cosmos e das partículas mais do que diminutas, não é o que este texto pretende oferecer. Sugiro o livro, bem escrito, bem estruturado, e redigido do ponto de vista de quem está por dentro do assunto, um pesquisador efetivo.

Toda vez que leio algum volume sobre divulgação científica, algum grau de iluminação interior me atinge. O Universo Elegante, necessariamente, causaria um efeito fortíssimo. Ao correr para as bordas extremas, ambas distantíssimas de nossa percepção cotidiana, a ciência reforça nossa pequena minúscula e a bizarria da nossa constituição.

O tempo, o espaço conhecido e mais as dimensões recurvadas escondidas nos domínios das micro-partículas, tudo isto conspira para nos dar a certeza de que nunca teremos visto tudo o que há para ser visto. Nem mesmo naquele túnel do final da vida, em direção à luz, eu presumo.

Somos, eu, você, nossos pais, nossos amigos, nossos algozes, nossas casas, nossos prédios, nossas cidades, os animais, as florestas, tudo enfim, tudo o que vemos é resultado de um capricho de minúsculas ondas muito além do ponto a partir de qual nossos equipamentos mais sofisiticados se tornam cegos.

Somos ajuntamentos temporários, vivendo um tempo tão curto, diante do tempo cósmico, que pensamos que somos longevos ou mesmo eternos. E somos apenas combinações provisórias que vão se desmanchar, como todas as outras, no mar do universo. Há uma chance grande de alguns budistas fazerem parte do arcabouço teórico religioso que chegou mais perto desta percepção que tanta paz traz.

***

Me abisma, no meio engenheirístico, a cegueira para alguns fatos óbvios. Conheço uma boa dúzia de engenheiros que não consegue entender, por exemplo, porque há gente se esforçando tanto para colocar sondas cada vez maiores e mais poderosas em Marte. Também não entendem porque se gasta tanto dinheiro nisso.

Bom, pessoas gastam milhões em celulares idiotas, então o financiamento não deveria ser o ponto a se questionar, enfim. Disgressões à parte, há investimento em pesquisa espacial porque se tratar de assunto estratégico, com potenciais resultados imediatos, como a mineração em asteróides, por exemplo. Suponhamos que se descubram jazidas enormes, boiando no espaço, de algum mineral muito valorizado; o impacto na economia seria gigantesco. Quase tão grande quanto se o tal asteróide viesse voando para Wall Street por conta.

Se a pesquisa espacial tem suas razões óbvias, o mesmo não se pode dizer da pesquisa avançada em física. Trata-se, primariamente, da intensa curiosidade, pela busca das respostas mais cruciais da existência humana, o ponto final na discussão sobre de onde viemos, um tapa na cara de quem nos propõe “conhece a ti mesmo”, a questão que nos assombra desde a mais remota percepção de nosso cérebro.

Responder esta questão, por mais apaixonante que seja, não se converte em dinheiro. A física teórica e a física experimental, quando se lançam a buscar os pilares da criação, não dão retorno financeiro nas planilhas dos fumantes de charuto que mexem os pauzinhos por trás das bolsas.

Minha teoria é que existem mentes privilegiadas que só se colocariam em movimento para responder as perguntas realmente difíceis. Eu diria mesmo que estas mentes não seriam tão brilhantes se não tivessem de superar suas limitações ao buscar vencer desafios quase desumanos em sua complexidade, tanto conceitual quanto matemática.

A humanidade em geral recebe, como retorno ao investimento nestas pesquisas, efeitos colaterais, descobertas assombrosas derivadas das ferozes investidas dos físicos de vanguarda. Para chegar ao cerne da criação, métodos precisaram ser cunhados, ferramentas precisaram ser inventadas, e estes meios, embora pensados para a pesquisa das bordas do conhecimento humano, acabam sendo aproveitados pela indústria para melhorar nosso dia-a-dia. Ou para fazer qualquer celular idiota.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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