Distorção e Fetiche

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O Brasil é este país curioso em que a indústria automobilística manda. A Anfavea espirra, e governos correm para assoar seu nariz. O lenço, não raro, é alguma bonança tarifária, como as isenções de IPI, que ajudaram a entupir, um tanto mais, nossas já combalidas e maltratadas estradas e ruas.

Esta dinastia dos automóveis não é exclusividade brasileira. A Alemanha, por exemplo, fica tensa toda vez que a Volkswagen tem uma indigestão nas bolsas. É que aqui a conivência do governo para com os fabricantes de automóveis ganha contornos novos ao se encontrar com o folclórico “jeitinho”, nome simpático que se dá ao possível maior câncer da nação tupiniquim.

O brasileiro ama seu carro, papagaiam propagandas e revistas especializadas nestas tragédias de metal sobre rodas. O brasileiro, na verdade, tem fetiche por carro. Brasileiro adora mostrar o carro que comprou, abrir o capô, mostrar aquele monte de parafernálias que ele provavelmente nem tem ideia de como funciona, e que vai lavar com mangueira no final de semana, mesmo que o manual diga que não se deve fazer isso.

A propriedade de um veículo automotor é um símbolo, ou pior, uma necessidade. Um cidadão brasileiro só se faz digno se tiver uma encrenca poluidora para chamar de sua. Só sua. A vida só fica melhor ainda se a mulher tem o seu corsinha, e o filho tem o seu celtinha.

Este aspecto social reflete-se fortemente na cidade brasileira. As ruas estão apinhadas, o trânsito está uma porcaria, os ciclistas são alvos em um safári de óleo, aço e borracha, e o transporte coletivo parece estar buscando recordes de ensardinhamento dentro de unidades que se arrastam como mamutes fumacentos em meio a uma manada de gnus engarrafados.

A coisa fica mais gritante quando se faz necessário dar suporte a minorias com restrições de movimentação. O governo brasileiro busca atender ao deficiente físico, por exemplo, mas o faz dentro das regras distorcidas que definem a nossa relação com o trânsito. Carro é uma propriedade, uma lufada de orgulho em nossas vidas tão cansadas, e não apenas um dos modais que poderiam te levar de um lado para o outro.

É triste, mas é coerente. O deficiente físico, na minha opinião, deveria ter transporte coletivo decente, assim como todos nós. Mais do que isso, deveria ter descontos brutais no uso de táxis e formas seletivas de transporte coletivo, com acesso especial e serviços específicos. Se a grana do desconto dos carros para deficientes fosse direcionada para estes serviços especiais, teríamos muitas vantagens.

Primeiro, a abrangência. O desconto para veículo automotor só serve para quem tem grana para manter um veículo. Ninguém dá desconto para deficiente físico, nem em posto e nem em oficina. Aliás, sai ainda mais caro, pois o carro, muitas vezes, precisa ser transformado. Se fosse dado desconto em táxi e fossem disponibilizados coletivos especiais, a população mais pobre seria beneficiada também, e não apenas a classe média e alta.

Segundo, a corrupção. Levanta a mão aí quem não conhece alguém que tem parente deficiente, cuja família usa o carro comprado com desconto? E geralmente é gente que nem precisava do desconto, não é? Se duvidar, é gente que se revolta com a corrupção, não é? É, “complicado”, não é? Na minha proposta não tem nada disso, quem recebe o desconto é o deficiente físico, e não a família malandrona.

Terceiro, o barateamento dos táxis. O incentivo ao uso do táxi pelos deficientes propiciaria um ganho de escala, barateando táxis. Ainda sonho que Florianópolis possa ter tantos táxis quanto Buenos Aires ou Nova Iorque, e uma população que os use normalmente.

Quarto, a segurança. Dirigir um veículo automotor é uma atividade perigosa, principalmente para os pedestres e para os elementos de trânsito mais vulneráveis. Pessoas ao volante, em boas condições de saúde, podem causar acidentes ao beber, ao se distrair, ao ingerir medicamentos, ao dormirem pouco. Por que aumentar os riscos acrescentando mais elementos de dificuldade? Aqui teríamos um obstáculo social imenso, de que já falamos antes no texto. Ainda mais se considerarmos o machismo de nossa sociedade. Imagina que horror, um pai de família que não dirige um carro só porque tem, digamos, um problema sério num dos pés?

É um ponto polêmico, não tenho dúvidas, mas que merece discussão e novas propostas. E você, o que acha?

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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5 respostas para Distorção e Fetiche

  1. Mario Tessari disse:

    Texto bem escrito, detalhado, abrangente e elucidativo, que coloca em evidência que os governos brasileiros de todas as bandeiras são capitalistas, elitistas e maus gestores.

  2. marcelo de almeida disse:

    meu sobrinho levara este texto !! Para um trabalho na escola , tudo bem ??

  3. Gilvas, tem uma propaganda antiga do governo federal sobre o “desenvolvimento” do país, que sempre me chamou a atenção. Nela ocorrem imagens com a transformação de cena ruins em boas, como reflexo das ações do governo. Dentre algumas, um traficante se transforma num estudante, e um cidadão num ônibus se transforma num motorista com seu carro. Essa é a visão do transporte coletivo…

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