Prateleira

Bookshelf

A câmera passa lenta diante da prateleira repleta de livros. Sua lente espreita cada lombada sem demorar-se muito, os volumes e as cores se sucedendo sem uma ordem determinada. A biblioteca se organiza pelas iniciais dos sobrenomes dos autores; uma pequena balbúrdia se origina disso. Conforme são adicionados volumes, um padrão diferente surge silenciosamente. Os volumes emprestados criam o contrafluxo desta tendência, com efeitos similares. Alguns volumes não voltam. Fazem falta menos na prateleira do que no coração do rato da biblioteca. Livros que se perdem habitam um limbo emocional de dor difusa, uma dor de sonho, que assombra o rato da biblioteca em ondas súbitas em dias aleatórios. Dói um pouco mais quando se trata de um volume especial, um presente como foi A Marca Humana, do Philip Roth; dói porque ali estão Pastoral Americana e Casei com um Comunista para te lembrar de que se tratava de uma trilogia. A cada vez que a lembrança e é sufocada a tristeza da perda, a pergunta que ecoa é “devo comprar um novo exemplar?” O silêncio que se segue não responde. A prateleira segue do jeito que está, a câmera se afasta para um novo dia de labuta e esquecimentos.

***

Ou para ir ali ouvir um pouco de Divine Comedy e sua muito apropriada Lost Property. Não é bem a mesma coisa, mas há um sentimento similar envolvido.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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