Paul Thomas Anderson: O Mestre

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Sou fotógrafo amador. Mais amador do que fotógrafo. Provavelmente fotografo menos do que penso sobre o assunto. Um dos meus dilemas prediletos é olhar para um dado local, e imaginar que bela fotografia está ali, escondida dos leigos, e disponível para um entendido.

Acredito que um bom fotógrafo extrai uma bela imagem de qualquer lama visual. É um dogma pessoal, uma concepção romântica e inalcançável, mas que acalento com carinho. Algumas vezes até exercitei o conceito, com graus diversos de sucesso e nenhuma divulgação.

O Mestre, última película de Paul Thomas Anderson, me fez pensar muito nisso. Ele já havia me perturbado com Sangue Negro no passado. Ele volta com mais do mesmo, novamente escudado pela trilha de Johnny Greenwood, e com um Joaquin Phoenix parecendo demais com Daniel Day Lewis. Sem surpresas, uma vez que Lewis protagoniza Sangue Negro.

E o que diabos a fotografia de lugares feios ou estéreis tem a ver com este filme? Ora, ninguém presta neste filme de Anderson, assim como ninguém prestava em Sangue Negro. O diretor parece enxergar, através de suas magníficas lentes, uma humanidade sem possibilidade de redenção, um bando de escroques sujos, de golpistas hipócritas. Dá vontade de puxar briga até com alguns figurantes dos filmes de Anderson.

Se a tela abunda de ogros, como pode ser um filme tão belo? Como apreciar um filme que encanta os olhos ao mesmo tempo em que embrulha o seu estômago? Faulkner, em suas narrativas desencantadas sobre o Sul mítico dos Estados Unidos, sempre dosou, em nuances épicas, crueldade e redenção. Anderson, por seu turno, trabalha seu dipolo em camadas distintas, diversifica as vias pelas quais atinge nossos sentidos, seleciona a sensação que quer entregar a cada órgão.

A beleza das cenas é indescritível. Sua câmera passeia pela podridão contornando elegantemente quadros de beleza intensa. A experiência do espectador é perturbadora; não é o tipo de filme que te diverte ou te entrete, ele está muito próximo do intento de Kafka, ou seja, de criar obras que “não divertem, mas abrem sua cabeça como um machado o faria”.

Os olhares de Anderson são inusitados e lentos. Eu estava com saudade de tantos planos lentos e cuidados. Os atores são essenciais para alcançar este resultado, e acho difícil algum deles ter saído com a cabeça boa deste filme.

Phoenix tem se apegado a papéis perturbadores e a personagens perturbados. Ele caminha pela tela com seu corpo torto, o exterior tão distorcido quanto seu interior recheado de bebidas tóxicas. Philip Seymour Hoffman sempre me perturba, mesmo que esteja fazendo algum filme bobo para a Disney. Amy Adams encarna com perfeição a única personagem que efetivamente parece saber o que está fazendo.

O restante do elenco é competente, e Anderson deve ser um filho-da-puta como diretor, o tipo de tirano que estraçalha seus atores. Todos estão excelentes, presenças que a câmera devora e instiga, prensados entre as luzes e as sombras meticulosas do diretor.

Menção honrosa seja feita à cena com todas as mulheres nuas. O personagem de Phoenix pisca, e elas surgem despidas. É o ápice do conceito de beleza invertida de Anderson. Os corpos são desprovidos, pela depravação do ex-militar pinguço, de todo o nexo sensual. Pelo menos na tela. O que se passa dentro dele é algo que se insinua pelo movimento, pelo antes e pelo depois desta cena.

A cena inicial parece se repetir no final. Mas não é a mesma. Ou era eu quem via de modo diferente.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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