Michael White: Rivalidades Produtivas

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A premissa de Rivalidades Produtivas é relacionar oito conflitos que redundaram em avanços na ciência e/ou na tecnologia. É uma boa literatura para nerds letrados que queiram ir além do estereótipo dos óculos de armação grossa.

Michael White tem um bom currículo de divulgador científico, e também foi membro, descobri na orelha do livro, da banda Thompson Twins, que fez relativo sucesso nos anos oitenta. Sobre uma das brigas, provavelmente a mais ridícula, eu já havia lido um volume bem mais polpudo e detalhado. Tenho algum conhecimento sobre os acontecimentos em torno da publicação da Origem das Espécies, e da crucial participação do avô de Aldous Huxley, um encrenqueiro que seria de muita valia nestes tempos de obscuridade evangélica que nos rondam.

As outras escaramuças são interessantes, não necessariamente pelo confronto, mas pela descrição detalhada dos disputantes e os ambientes onde viviam. Fiquei especialmente fascinado pela figura de Lavoisier e por seu destino trágico. Seu capítulo envolve dois assuntos que me interessam profundamente, Revolução Francesa e a bizarrice conhecida como flogisto. Este conceito era usado na época de Lavoisier para explicar reações de oxidação e redução, e devemos profundos agradecimentos ao coletor de impostos francês por livrar a humanidade de tamanha patacoada.

Sempre preferi o dândi Tesla a Thomas Alva Edison, embora o caráter esforçado deste não possa ser desconsiderado como uma notável virtude. Este livro, todavia, joga luz sobre alguns aspectos muito lamentáveis da disputa entre as correntes contínua, de Edison, e alternada, de Tesla e Westinghouse.

O ponto baixo da disputa foi protagonizado por um indivíduo de sobrenome Brown, propagandista de Edison. Brown montou diversas demonstrações públicas visando provar que a corrente alternada era mais perigosa do que a corrente contínua, mesmo que a primeira fosse aplicada em tensões mais baixas comparando com a segunda. Em outras palavras, ele queria provar que, digamos, mil volts de tensão contínua aplicados a um ser vivo causariam menos dano que trezentos volts de tensão alternada.

Não bastasse ser uma teoria ridícula, Brown matou muitos cães de forma cruel, aplicando-lhes tensões elevadas diantes de platéias horrorizadas. Em suas demonstrações, os cães morriam com tensões CA mais baixas do que as respectivas tensões CC, resultado que era conseguido por diversos expedientes de falsidade. Associações de direitos animais receberam o apoio de cidadãos enojados, e a loucura foi detida.

E o resto da história todos conhecem: Tesla vence Edison, mas é engabelado por seus empregadores, e morre pobre num apartamento cheio de pombos. Edison continua sendo um ser humano de inteligência mediana, porém de tenacidade imensa, e ainda consegue alcançar os louros de outras invenções, como o gramofone.

Ao final do livro, White retorna ao tema de introdução, onde trata do contraponto de religião e ciência, o que me inspirou uma retomada de meu horror a toda e qualquer instituição religiosa, e, em especial, a obscurantista igreja católica. Que as pessoas tenham liberdade de culto, mas que não sejam cobertas pela sombra nefasta das explicações bizarras da igreja para os fenômenos da natureza.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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