François Ozon: Dans La Maison

danslamaison

O último do François Ozon, Dans La Maison, surgiu nesta tarde cinzenta de junho como uma grata quase-surpresa. O título estava em inglês, e eu descobri que se tratava de um filme francês apenas depois de colocá-lo para rodar.

A trama me empolga. Livros e processo de escrevê-los, e toda a carga doentia que pode existir por trás das cortinas deste ato.

Ozon é um diretor que ainda não me convenceu. Muitas vezes ele parece um bom acrobata, faz bons truques, mas falha miseravelmente na finalização. Gosto dos seus enquadramentos, gosto das cores, gosto da forma como ele tenta ligar os planos com pequenas citações circulares, gosto como ele insere pequenos absurdos na interpretação de seus atores.

Porém, falta alguma coisa. Os filmes de Ozon não precem chegar a um bom ponto. Talvez ele mexa demais a mistura, eu não sei especificar o que está errado, e não sou feito do mesmo material que os críticos de cinema. Prefiro ser um espectador, e este espectador se encantou com as inquietações, em torno da arte, que permeiam a trama.

Germain claramente prefere a literatura dentre as artes, e Ozon usa este mote para representar parte do seu afastamento da esposa. Jeanne está na corda-bamba, a galeria para a qual trabalha vai ser devorada pelos ignorantes da contemporaneidade. O nome da galeria é pomposo a ponto da própria Jeanne questionar se não é isto que afasta os clientes. As gêmeas, que vão acabar com tudo, são representadas como aldeãs ignaras e poderosas. Chega a ser didático, e eu me diverti. Mas é uma piada interna, o que rouba uma potencial expansão do filme de Ozon a uma universalidade.

O problema, no geral, são os atores. Ou Ozon, que talvez não tenha conseguido extrair deles o desempenho necessário. Eu não esperaria muito de Fabrice Luchini, que se sai melhor em papéis burlescos, é um excelente ator para sessões da tarde de alto nível. Quem ferra com tudo, entretanto, é Ernst Umhauer. O papel é difícil, e falta densidade a Umhauer para executá-lo a contento.

Porque falar deste filme então? Dans La Maison, embora disfuncional, mexe com diversas camadas, instiga análises. A homossexualidade latente emana insistente de Germain, por exemplo, e toma forma apenas em um beijo entre Rapha filho e Claude. Claude forja ou incita o beijo como forma de saciar uma obsessão de Germain, ou apenas esbofeteia Germain para que este entenda seu lugar na relação? É um exemplo.

Claude sexualiza a todos com sua escrita. Se é verdade, ou apenas ficção, não vem ao caso. O mais desprezível dos personagens é, pela lente de Claude, Rapha Pai. Para ele resta a figura sexual de um burocrata, desatento e mecânico na posse de Esther, o arquétipo da mãe ausente. O pai real, paraplégico, é um reflexo num espelho de água monótona e fria; dois arquétipos de incompetência se entreolham, conformados.

Dans La Maison deve ser visto porque vai causar algum impacto, vai gerar pelo menos uma boa conversa no boteco. Talvez dure menos na cabeça do que a ressaca do boteco, mas ainda merece ser observado com algum carinho. Assim como Ozon, que nos deve ainda uma obra-prima.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Cinema Europeu e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s