Na rua

marching-penguins

Sintomático que após um dia histórico venha um dia frio e chuvoso. Ou dois. Ou nada disso, é apenas a boa e velha segunda quinzena de junho sendo o que ela sempre foi. Nestas duas semanas de clima horrível, Morrissey teria material de sobra para compor irmãs de Everyday is Like Sunday.

Os protestos de ontem foram uma das coisas mais lindas que eu já vi, embora apenas por fotografias e impressões de terceiros. Perdi este bonde. Entretanto, eu gostaria de ter estado lá. A Província do Desterro provavelmente não tinha visto uma manifestação tão democrática e impactante desde, provavelmente, sempre.

Dado o bom precedente, espero que a democracia tenha vindo para ficar. Devem ser agradecidos os movimentos anteriores, que tomaram borracha e cassetete da polícia, e abriram caminho, nas mentes e nas organizações, para que este protesto funcionasse. O precedente da violência policial em São Paulo também ajudou, pois nosso jovem prefeito, em fase de criar sua imagem de bom-moço boa-pinta, não quer encrenca para o seu lado.

Encafifou-me, entretanto, que algumas pessoas focalizassem um protesto difuso, que mira uma nuvem de injustiças, na direção de suas causas muito pessoais e não tão nobres assim. Há quem pense que protestava contra a Dilma, há quem ache que se tratava de uma marcha mauricinha contra a corrupção…

Ainda que o estopim tenha girado em torno de aumento de passagens e desmandos na gestão do transporte coletivo, indignações muito bem gerenciadas pelo movimento do passe livre, o protesto de ontem era sobre o estado geral das coisas, era sobre o jeitinho brasileiro, algo que devemos legar aos museus se quisermos ser a potência que temos tudo para ser.

Admiro a luta do movimento do passe livre. Sem eles para patrolar o caminho e para apanhar da polícia anos atrás, não teríamos ponte tomada ontem. O problema que enxergo é o alvo final, o tal do passe livre. Pode ser que o objetivo tenha mudado, e apenas o nome infeliz ficado, como o nome vergonhoso que certas bandas outrora famosas tiveram de carregar durante suas respectivas fases sérias. Exemplo? Biquíni Cavadão.

A exigência adequada é transporte coletivo decente, nem que, para isso, o Estado tenha de injetar pesados subsídios e incentivos. Como dizia ontem algum cartaz, forjado ou não, “país bom não é um lugar onde pobre anda de carro, mas rico anda de ônibus”. Os subsídios precisam parar de ir para as montadoras de automóveis, chega de cortar IPI para agradar à ANFAVEA. Quer gerar empregos? Porque não incentivar, então, a outrora poderosa indústria de carrocerias para ônibus?

O Brasil sofre com alguns complexos de novo-rico deslumbrado. O incentivo desmedido à aquisição de veículos automotores individuais, a promoção da copa do mundo de futebol e das olimpíadas, estes são apenas alguns sintomas de novo-riquismo. Sei que estamos investindo em ciências, que estamos retomando a pesquisa aero-espacial, e isto tudo é excelente. Precisamos de ajustes. E de mudança de postura nas classes que dirigem o país.

Curioso é que solicitem ações da esfera federal, como se esta nada tivesse feito para incentivar o transporte coletivo. Alguém lembrou da isenção de PIS e COFINS para o setor de transporte coletivo? Ainda é pouco, mas é um passo que está sendo dado na direção correta. Os próximos passos dependem de pressão, constante e focada. Quero viver para ver bondes elétricos nas ruas, pistas exclusivas para ônibus de qualidade, ciclovias repletas de pessoas indo para ou voltando do trabalho.

Ouvi falar de grupos organizados de manifestantes, algo como um trio elétrico saindo de algum templo de consumo. Como qualquer manifestação, a de terça-feira ou a de quinta-feira podem ser cooptadas pelo status quo. E provavelmente serão. Almeidinhas brotarão das calçadas, a RBS está alinhando o discurso, e não me surpreenderia se uma tropa de mauricinhos começasse a pintar a cara e pedir impeachment da presidente do Brasil. Tudo isto é o que pode não se esperar, mas que se sabe que vai acabar acontecendo.

Cheguei naquela idade em que a gente raramente se surpreende, mais ainda luta para não se decepcionar.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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