John Updike: Casais Trocados

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Casais Trocados é um Updike exemplar, mas não necessariamente o ápice de sua obra. O número de páginas está acima da média que eu percebi até este momento. A forma, neste caso, parece se confundir com o conteúdo. Explico: ao representar o tédio da classe média norte-americana no início da segunda metade do século XX, Updike por vezes deixa seu bolo embatumar. A edição brasileira da série Grandes Sucessos, da Abril, não ajuda muito a mistura a respirar; as letras são pequenas e o espaçamento, muquirana, no esforço de socar o máximo possível de conteúdo em cada página.

A obra, todavia, embala da metade em diante. Updike centra a primeira metade em descrições dos casais e dos espaços, e o faz em longos parágrafos. Quando passa a descrever as alterações das relações ao longo do tempo, ele passa a usar mais diálogos, e a leitura flui melhor.

Tarbox é uma casa de bonecas, uma miniatura de grandes extensões geográficas. A cidade é pequena, e as pessoas, idem. Os dramas parecem enormes numa primeira visada, mas logo se percebe que o pé-direito dos cenários é que é pequeno. Esta perspectiva distorcida se desmancha diante de qualquer solução dos, aparentemente, grandes problemas. Algumas personagens, as mais ativas, são as que menos percebem aonde estão chegando, a quão bizarros costumes sua vida está se entregando. Cabe aos traídos, aos passivos, desatar os nós, resolver as intrigas com golpes leves de pincel.

Updike é desbocado neste livro. Suas descrições de atos sexuais são tão profundas quanto rápidas. São cenas que vemos de relance, e que assim são vistas pelos seus perpetradores, tão centrados em si mesmos que nada percebem acontecer. Piet, por exemplo, salta de amante em amante com facilidade, mas não consegue deixar para trás a sua posição social inferior. Freddy chega ao ápice de suas artimanhas para simplesmente não conseguir, fisicamente, desfrutar de seu troféu, arrancado à força de paciência e oportunismo a seu nêmesis.

As paisagens entre as cenas, um dos expedientes literários mais caros a Updike, aqui mostram-se deslocados e ineficazes. Em mais de um momento, estas inserções me remeteram aos momentos, agora constrangedores, em que cenas panorâmicas do Pantanal surgiam na novela homônima, aquela da Juma Marruá.

Casais Trocados é um pouco decepcionante, mas não vejo como poderia ser escrito de outra forma. Updike é, enfim, o melhor no que faz, e descrever a classe média norte-americana não é necessariamente um entretenimento.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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