Malhando a novelinha

rightwingdilution

Existe uma certa coerência excêntrica no ato de analisar, enquanto na esteira ergométrica, sócio e antropologicamente um programa de televisão chamado “Malhação”. O número de barbaridades politicamente incorretas, justamente num programa que deveria evitar fortemente estes resvalos, é assustador.

A trama é uma diluição continuada daquela mesma que William Shakespeare cunhou inicialmente há alguns séculos: intrigas, dramas familiares, algum alívio cômico, erros que conduzem a revelações, e por aí vai.

Comecemos por um personagem, o menino que trabalha no salão. Ao redor dele há todo um desenho que diz “gay”, mas o personagem é esvaziado de qualquer sinalização libertária de sua sexualidade. Ele é descrito por clichês de subúrbio, paparicado pelas mulheres por ser um ser dotado de pinto inofensivo. O rapaz não desmunheca, embora haja risco disto acontecer a qualquer momento, e ele obviamente nunca vai trocar uma bitoca sequer com eventual par romântico.

Há um refugiado haitiano, numa tentativa de ensinar alguma coisa aos moleques que estão ligados neste programa de televisão. A história contemporânea é esvaziada de sua essência, e o momento alto da narrativa do refugiado é o momento em que a guerra civil é suspensa temporariamente para que todos assistam a um jogo da seleção brasileira. Sintomaticamente, o rapaz do salão chora canhestramente. Eu quase choro diante da transmutação globalizada (de Globo) do sofrimento da guerra em lavagem cerebral pró-Copa do Mundo. Aquela mesma cujos impostos sobre os direitos de transmissão a mesma Globo sonegou.

Para as mulheres, os papéis de sempre. Ontem mesmo rolou um momento especial. O playboy, rejeitado pela mocinha do seriado, é humilhado numa pracinha onde pessoas idosas pegam um sol e jogam conversa fora. O playboy pede a um dos senhores que não conte nada para a mocinha, ao que o senhor retruca que “não vai falar nada, mas não garante que aquele bando de mulheres não vai fofocar”. Porque homem não fofoca. Claro.

O que se percebe em Malhação é um processo bem azeitado de formação de futuros leitores para a Veja, garantindo o futuro imutável da sociedade reacionária em que vivemos.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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