A descontrução do mito sombrio

sadmonster

Eu nunca entendi direito o prazer que os cultores pop têm em desmontar, pelo viés do kitsch, os grandes ícones sombrios. Um exemplo óbvio e didático é o Batman. O personagem nos quadrinhos oscila entre tons de escuro ao longo das décadas desde sua criação. Nesta mídia, entretanto, ele não chega a ser maltratado.

O alter-ego de Bruce Wayne sofre mesmo é na televisão, apesar das excelentes adaptações nas séries animadas. O ápice da dor do morcegão se deu na série dos anos sessenta, que exibe uma fúria iconoclasta que viria a ser revisitada, de forma amadora, pelos rapazes que criaram a dublagem oitentista Feira da Fruta.

A própria DC Comics já havia criado algumas distorções para buscar melhorar a venda de bonequinhos dos personagens. E lancheiras. O principal elemento desta manobra é o menino-prodígio Robin. E a própria editora se arrependeu, pois Dick Grayson amadureceu, deixando as sapatilhas verdes, e assumindo o nome de Asa Noturna. Apropriadamente, ele enverga um uniforme sombrio. E logo a DC deixou de lado o arrependimento, e a história segue. Feliz foi Christopher Nolan ao usar o Robin como uma potencialidade em lugar de sua identidade clássica. Há o risco do Robin virar um Azrael, mas prefiro conviver com isso do que com mais uniformes coloridos de Robin Hood.

Bem antes do morcegão, entretanto, ícones das trevas já eram achincalhados. Estou lendo uma trilogia, presenteada pela Maricota, que contém as obras mais sombrias de Shelley, Stevenson e Stoker. Reli Frankenstein. A tradução não é muito diferente daquela que li uns anos atrás, mas o livro ainda me impressiona. Descontem-se os exageros que Mary extrai do convívio com seu ultra-afetado marido Percy, e a narrativa respira com um vigor impressionante para seus mais de cem anos.

Curioso é que os métodos de Frankenstein são explicados de uma distância que permite apenas a curiosidade. Se os olhos chegarem mais perto, há apenas névoa descritiva. Shelley é cuidadosa, utiliza-se de vultos para remeter a debate sobre um homem que se permite ser deus. Frankenstein cria uma maravilha, e esta maravilha se volta contra ele.

A beleza do romance é que não há maniqueísmo. A criatura odeia seu criador por conta do horror da sua própria existência. Este horror poderia ser o da nossa própria existência, mas temos algumas compensações diuturnas que nos aliviam este fardo. Mesmo os céticos conseguem encontrar algum consolo na arte, enquanto as massas buscam anestesia e esquecimento na televisão e na religião.

Frankenstein, na cultura pop, passa a ser a criatura. E a criatura é abobada, um monstro, incapaz de pensar direito, um grandalhão que se move desastradamente. A criatura original é ágil, movida por seus músculos poderosos, um colosso de mais de dois metros de altura. Este ser formidável em força é também uma criatura sagaz, que aprende rapidamente com as pistas que a humanidade lhe permite entrever ao meio dos xingamentos. No cinema, a criatura caminha pela tela levando as mãos à frente do corpo, à moda de algum zumbi prototípico.

Hyde, a face oculta de Jekyll, criado por Stevenson, também é reduzida a um monstrengo violento nas páginas da Marvel. Um tributo muito mais interessante, na própria Marvel, seria o incrível Hulk. A dualidade do monstro verde, em certas páginas escritas por Peter David, é muito mais interessante do que as ações estereotipadas do personagem secundário que é Hyde.

Ainda não comecei a ler o volume mais extenso, que é da narrativa de Bram Stoker. Seu Dracula não é original, o que poderia explicar o cuidado com que cercou a sua narrativa sobre o vampiro da noite. Seus recursos são inovadores: Stoker conta a história de forma fragmentária, através de cartas, bilhetes, notícias, pelo que pude notar ao folhear e ler alguns trechos. Esta abordagem é, curiosamente, muito menos ortodoxa do que aquela que Coppola adotou em seu mais do que respeitoso tributo cinematográfico.

Ainda que resvale em momentos não exatamente gloriosos, Coppola consegue mostrar seu vampiro como um homem desesperado por sua amada perdida há séculos, uma criatura trágica que se vale de todas as ferramentas para alcançar seu intento. Esta astúcia maliciosa escapa a quase todas as outras adaptações, que o transformam em um sedutor vulgar, uma espécie de Fabio Junior de pele clara demais. A cultura pop, com raras exceções, toma um produto do romantismo mais deslavado, e o transforma em um hedonista com toques de perversidade.

Shelley é menos inovadora, apesar de seu uso de cartas dentro da narrativa. Entretanto, ela é notável pela riqueza dos detalhes, dos encadeamentos cuja lógica distorcida, típica dos espíritos atormentados tão em voga no século XIX, se derrama em cenas que beiram o inverossímil pomposo, e que, talvez por isso mesmo, nos encantam tanto tempo depois.

Sejamos otimistas, pensemos que um tesouro como Frankenstein ainda pode ser descoberto por um adolescente que viu uma corruptela da criatura de Shelley em algum desenho animado tosco. Sonhemos que nem tudo é passível de corrupção pela indústria. Sonhemos, é o que nos resta.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Filosofia de Boteco e marcado , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s