Malditos serviçais

almeidinha

Experimenta conviver com colegas de classe média, se é que já não convives com o tipinho. O mimimimi da classe média é uma ocorrência universal, então os discursos a seguir devem soar familiares para você, caro leitor.

O nosso colega branco, classe-média, admirador da independência e da coragem de João Luiz Woerdenbag Filho, quer revestir sua sala com um piso que ele viu na inauguração do Balarotti. Ele busca quem coloque o piso, mas o mercado, ai gente, ninguém quer trabalhar, tá muito cara a mão-de-obra… A ladainha começa com:

“O pedreiro é muito caro”.

O prestador de serviço, segundo a lógica do nosso aprendiz de Luciano Huck, não merece receber um salário decente, por razões que veremos mais adiante. O pedreiro tem de comer mal, morar mal, festar mal. Ai do pedreiro se tiver uma L200 2001, como é que pode ter uma picape importada?

Esta percepção decorre do fato do pedreiro não ter estudado; dado que ele não faz parte da casta superior, dos que tiveram estudo, o trabalho do pedreiro vale menos do que o trabalho de quem tem escola. Bem menos.

Daí são percebidos dois aspectos:

a. Estudar deve ser muito ruim, pois você merece ganhar mais por ter passados anos sofridos na universidade. Como assim? Estudar é um privilégio, assim como exercer uma profissão de prestígio em instituições de respeito, estando a par das tendências técnicas e tecnológicas contemporâneas. Estudar te permite fazer trabalhos de elevado nível intelectual, em ambientes limpos e refrigerados, com banheiros decentes, refeições em horários adequados e baixa periculosidade.

b. O estudo é enxergado como meritocracia, mas a pessoa que estudou esquece que teve a chance de estudar, teve uma família que a sustentou, e provavelmente cursou sua faculdade numa instituição pública, ou uma particular, que recebe uma porrada de incentivos do governo. Sim, eu conheço algumas pessoas que vieram de uma família pobre e ralaram para chegar na universidade, mas são poucas. A maior parte dos universitários é de bem nascidos ou remediados. Ou seja, o universitário faz realmente parte de uma casta superior em nossa sociedade sem castas. Boa piada.

O acesso à universidade é uma forma de herança muito utilizada pela classe média assalariada. Como não tem uma empresa para dar ao filho para gerenciar, nosso preocupado pai branco nos preparou e encaminhou para a universidade, nos mantendo o tempo suficiente para que ganhássemos tremenda vantagem num sistema em que conhecimento acadêmico é supervalorizado. A lógica é similar à da acumulação e da herança capitalistas.

O diploma universitário, esta vantagem do filho da classe média não deve ser perdida. Para tanto, o valor do trabalho braçal ou da habilidade com canos e tijolos, por exemplo, deve ser menor. Desta forma, o status quo é preservado.

Apesar de todas estas barreiras, é possível um pedreiro ascender profissionalmente, alcançando rendimentos superiores aos de assalariados com nível superior, para horror destes últimos. Isto se deve, em parte, a anos de pouca atenção educacional à mão de obra para a construção civil. O mercado tem pouquíssimos profissionais realmente bons, então estes podem cobrar o que o classe-média acha caro. Com uma boa administração e organização pessoal, o nosso pedreiro pode, ora, vencer na vida. E ter uma L200 um pouco mais nova.

É este profissional “caro” que pode atender aos anseios decorativos do nosso almeidinha exemplar. Desta forma, este profissional capacitado não existe. O almeidinha declara que “quer pagar, mas não tem quem faça o trabalho”. Adoro. Precisa ver quando o almeidinha diz que “o mercado dos pedreiros está inflacionado”. Tiro dez abdominais da minha lista diária quando escuto uma dessas.

Sugiro para o almeidinha que ele mesmo faça o trabalho. Afinal, se é um trabalho que merece tão baixa remuneração, deve ser simples, e pode ser feito por uma pessoa com tamanhas aptidões acadêmicas.

Isto não se aplica apenas a pedreiros, claro, mas a encanadores, faxineiras, pintores, fotógrafos, garis, jardineiros, babás e toda uma gama desprezada de prestadores de serviços. “São um bando de vagabundos, se querem ganhar mais que estudem!” é quase um mantra.

Uma variante é a do jogador de futebol. O cara não estudou, e ganha horrores sendo marionete das empresas de futebol. Teve de treinar pesado por anos, mas isto é esquecido pelo babaca com o controle remoto, que provavelmente não consegue atravessar correndo um campo de futebol. Tem de se expor a uma plateia de frustrados pequenos funcionários, e ainda escutar xingamentos por conta de seu comportamento ou de seu desempenho. Ou seja, não é apenas uma questão de ganhar mal. Você pode ganhar bem, e ainda assim ser um animal exótico na grande festa dos brancos reacionários.

Sonho com uma distribuição mais igualitária dos salários e também da importância dada ao trabalho de cada um, independente de sua formação acadêmica. Dizem que a Europa está mais próxima disso. Espero que o Brasil caminhe na direção de reduzir os abismos salariais entre as castas, e que possamos todos desfrutar da imensa riqueza deste país.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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7 respostas para Malditos serviçais

  1. Ronni disse:

    Tenho que dizer que é bastante limitada a sua opinião, companheiro. Isso porque não se pode fazer do “serviço” uma singela dicotomia entre “tomador” e “prestador”, muito menos transformá-lo em uma guerra de classes sob a égide social do “rico” e “pobre”. O “serviço” é universal e todos devem ter acesso, até porque faz parte do princípio do cooperativismo social. É necessário que os sujeitos em sociedade evoluam constantemente para melhorar sua capacidade laboral, seja de melhor ou pior condição econômica. A forma que propõe não melhora o “serviço” do prestador, pelo contrário, remunera a desqualificação e culpa o que teve maior acesso a educação. Ora, será que ele – o sujeito de maior qualificação – é o vilão opressor, responsável por todo um processo histórico de construção da nação desigual que vivemos? O texto reclama vários pontos muito complexos, sendo de certa forma irresponsável. Não sou de dar conselhos, mas a partir da sua opinião sugiro que pare de reclamar da comida, das pessoas, do transito, da indústria, dos impostos, do governo, dos autores, dos atores, dos canais de televisão, do carnaval, do futebol … de certa forma em seu blog eles são todos malditos serviçais.

    • gilvas disse:

      se os almeidinhas reclamassem apenas em seus respectivos quintais, eu não veria problema, e este texto não teria sido escrito.

      você é uma pessoa que escreve bem, mas devo apontar algumas ingenuidades em teu discurso, ou tu não entendeste meu texto. o serviço de qualidade deve ser bem remunerado, independente de ter sido prestado por um prestador que seja pós-graduado ou semi-analfabeto. a classe média não se interessa em apoiar o desenvolvimento da mão de obra prestadora de serviço, pois eles poderiam, com maior qualidade, cobrar mais caro. já imaginou se estes pedreiros, ou seus filhos, têm acesso à faculdade? o privilégio do filhinho de papai perde valor, o status quo se abala.

      a classe média não é a única responsável pela opressão das classes baixas, e provavelmente nem é a pior vilã, mas é extremamente conivente com as classes altas na manutenção da opressão.

      você é de dar conselhos, ou não teria dado este. seja menos falacioso, reflita mais; talvez seja melhor tu te assumires como almeidinha, caso seja a tua real inclinação.

  2. Jones disse:

    Contrato revisado e assinado por ambas as partes não são garantia de nada, Gilvas.

    Só de uma possível vantagem sua no momento de abrir um processo contra o prestador de serviço e de uma enorme vantagem do prestador junto à delegacia do trabalho.

    Pois os juízes (categorizados em um patamar que inicia na sua especificação de classe média) são condescendentes com os trabalhadores braçais. De maneira muito risível, às vezes, quase que preconceituosa, como se o trabalhador de baixa escolaridade merecesse maior acalento da lei, por assim ser.

    Há uma linha, que não é tênue, entre o verdadeiro trabalhador (como um colega acima ilustrou) e o picareta.

    Como a lei de Gérson ainda é imperativa no Brasil, com uma porcentagem enorme de contratantes sofrendo nas mãos de picaretas, o estigma do serviço “muito caro” e do “não merecimento” da L200, por parte do pedreiro, segue assim sendo sobrealimentado.

    ** Tenho um colega de trabalho que está em obras. Com contrato assinado, revisado, com CNPJ do construtor em jogo e tudo o mais, já em processo na justiça. E talvez ele tenha sorte, pois o juíz coxinha também acha que o construtor com CNPJ de ME não tem o mesmo direito de receber mimos da lei como o pedreiro de havaianas e lombo lascado de insolação.

    • gilvas disse:

      então, comoreto, é por isso que o texto fala destes “malditos serviçais” que roubam os suados caraminguás que nós, de classe média, recebemos em nossos empregos movidos a diploma.

  3. 33 disse:

    Dou grande valor aos verdadeiros bons prestadores de serviços, porém o que vemos é uma multidão de péssimos prestadores de serviço equiparando os seus preços aos dos supracitados bons prestadores.
    Dia após dia ouvimos relatos de falta de compromisso, descumprimento de acordos verbais, atraso nos prazos, serviços mal executados. Esta é a realidade. Bons profissionais, bons prestadores, são poucos.
    Estes dias quiseram me cobrar R$ 300 para terminar a instalação de um ar condicionado. Veja bem, não era uma instalação completa, pois ambas as partes do split já estavam instaladas, faltando apenas religar os fios e conexões. Porra… R$ 300 para UMA HORA de serviço? Td bem, vc pode argumentar “então faz vc mesmo”… argumento fraco, porém encerra a discussão.
    Acho que estamos ricos.
    Todo mundo quer cobrar caro pelos serviços prestados.
    R$ 40 pra lavar o carro
    R$ 300 por hora do instalador de ar
    R$ 200 por meio periodo de faxina
    R$ 100 pra ir de taxi do aeroporto pro centro
    R$ 60 por uma pizza qualquer nota entregue em casa
    R$ 300 pra dar umas “marteladinhas de ouro” num amassado na porta do carro

    ESTAMOS RYCOS!

    Todos devem (deveriam) ser bem remunerados, não por seus títulos, mas por seu desempenho, seus conhecimentos técnicos, sua produção. Isso é bem diferente do que estamos vendo, pessoas mal preparadas oferecendo serviços mal realizados por um preço altíssimo, e coitado de quem achar ruim, pois a má educação é quase que unanimidade, afinal de contas, pessoas que não tem noção de compromisso com a excelência, com a busca pela qualidade do serviço prestado, também não tem compromisso com a boa educação.

    • gilvas disse:

      gente, amei a parte em que você fala de “descumprimento de acordos verbais”. como se espera que seja cumprido, ao pé da letra, um acordo verbal? prestação de serviço deve ser pautada por contrato, revisado e assinado por ambas as partes. como se pode esperar seriedade do prestador de serviço se o cliente do serviço, possivelmente uma pessoa com diploma e com muita vontade de ver este país crescer, não exige ou fornece um contrato para descrever o serviço em questão?

  4. Dou aula para muitos pedreiros e aspirantes a tal. No caso específico de Santo Amaro, eles não abraçam a profissão por falta de perspectivas. Pelo contrário, é esse seu horizonte de possibilidades: os trabalhos braçais. As famílias e as amizades giram em torno de trabalhos que não requerem habilidades acadêmicas – e quem sofre depois com isso sou eu, em sala de aula, heheheh
    Complementando o que escreveste, o que eu quero dizer é que não é para todos que vale o caminho “baixa escolaridade=trabalhos braçais”. Desde pequenos eles vêem e ajudam os pais, parentes e próximos a trabalhar com isso. Engraçado é quando eu entro em partes do conteúdo que tocam o cotidiano deles, e eles é que me corrigem, invertendo a relação de poder professor x aluno.
    E, realmente, o noivo de minha colega professora de matemática recebe em torno de R$ 8 mil por mês tendo o nível médio completo. A prestação que ele paga por um terreno é quase o meu salário de professor 40h com mestrado.

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