Sean Howe: Marvel Comics A História Secreta

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Em Marvel Comics: A História Secreta, Sean Howe, conforme promete o título do livro, conta a história da maior editora de quadrinhos de todos os tempos. Ele parte de 1939, e segue até os anos dez do século XXI.

A História Secreta é um livro que agradará apenas a um grupo pequeno de nerds trintões, do tipo que se reúne na revistaria em Big Bang Theory. Howe descreve a editora como um ninho de intrigas, que a camaradagem espontânea entre artistas refresca em alguns momentos. É descrita a longuíssima contenda entre Jack Kirby e Stan Lee por conta de direitos autorais sobre personagens, e também os desencontros entre Lee e o artista original de Homem-Aranha, Steve Ditko.

Eu adentrei o universo Marvel na época de Guerras Secretas, então tenho, devido ao atraso monstruoso das publicações tupiniquins na época, visibilidade a partir de metade dos anos setenta. Guerras Secretas era apenas um caça-níqueis para a indústria dos brinquedos, e eu não sabia e eu não me importava. Eu gostava daquelas histórias, assim como gostava de Rom, outro painel de propaganda de brinquedos.

Desde os primórdios do que viria a ser a Marvel, tratava-se de arte para poucas pessoas além de alguns leitores. Como em qualquer indústria, o dinheiro é que importava. Esta percepção se amplia no início dos anos noventa, quando as estratégias tornam-se descaradas, através de edições com capas alternativas prateadas e outras besteiras. Na mesma época as armas começam a crescer, assim como a truculência de seus portadores. Rob Liefield simboliza, para mim, esta era: desenho grosseiro e sem arte, desrespeito grosseiro à anatomia humana, ausência de roteiros relevantes.

A fase anos noventa já havia sido previamente bem descrita nas edições da revista Wizard, mas Howe concentra a trama patética, incluindo a própria Wizard como uma das fomentadoras da posterior derrocada da indústria.

Howe pinta um Stan Lee distraído do que deveriam ser suas criações e também dos caminhos que elas vinham tomando. Em vários momentos o leitor se pergunta se Lee realmente seria o criador daqueles personagens, ou, se foi, porque teria perdido o controle dos futuros deles. Observando a ingenuidade dos personagens clássicos de Lee, talvez este realmente não conseguisse absorver a complexidade narrativa e as interligações cada vez mais amplas entre os títulos.

Lee, desde os anos setenta, parece inportar-se apenas em buscar um caminho para os personagens Marvel adentrarem o cinema. Ele o faz em parte por conta de seu tino comercial, que não vê futuro para os quadrinhos além da sarjeta, e em parte por suas inclinações; em mais de um momento Lee diz que preferia ter escrito roteiros de cinema em vez de quadrinhos. Lee, no frigir dos ovos, é apenas a faceta pública da Marvel, um bobo expansivo para usar na televisão e no palanque.

Ainda que meus comentários soem depressivos, este livro diverte intensamente. Eu o devorei com fervor. Debaixo de cada saga, ainda que houvessem ditames de mercado, emergem histórias hilárias dos bastidores, que respingavam nos diálogos e nas tramas. Vilões eram projetados com base em desafetos de um dado roteirista, e frases inteiras eram transcritas da boca de algum editor para a de algum personagem.

Depois de ler este livro, ainda não li nenhum gibi. Estou com receio. Como uma pessoa  minimamente sensível que desiste de comer carne depois de presenciar o horror em um açougue, receio que saber das entranhas da indústria me leve a não conseguir deglutir os seus produtos. Se for o caso, ainda assim valeu a pena. Todas as pilhas de gibis devorados e este livro.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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