Liev Tolstói: Padre Sérgio

padresergioPadre Sérgio é uma narrativa curta, menos de cem páginas. Na edição da Cosac & Naify, foi engordada por alguns textos de crítica literária sobre a obra, e uma carta do próprio Tolstói em resposta à resolução do Sínodo.

Apesar de pouco extensa, a narrativa concentra os elementos essenciais desta fase de Tolstói, que resvalava, em diversos momentos para a figura de pregador, em oposição à de ficcionista. Na época, Tolstói estava passando por uma fase de descrença pelo formato do romance. Pressentia, com razão, que a era dourada dos romances estava por ruir. Cansara-se do seu papel, também.

A narrativa é focada em Stiepán Kassátski, jovem ambicioso, que galgara vigorosamente os degraus na carreira militar para descobrir-se preso em uma armadilha humilhante. Esta condição é rapidamente declarada pelo narrador, e Kassátski passará, a partir daí, a alterar períodos de orgulho intenso e auto-comiseração.

Tolstói mantém um número reduzido de personagens intencionalmente. O efeito é introspectivo e algo claustrofóbico, um perfeito laboratório para atormentar sua cobaia protagonista. Ainda que Tolstói resmungue, em cartas, que sente-se um mentiroso ao criar histórias que nunca existiram, não há como negar seu talento de insuflar vida vigorosa a suas ficções.

Os capítulos de Padre Sérgio não parecem ser escritos, mas sim talhados no papel. O efeito é cinematográfico, com várias tomadas em planos fixos e tons contrastantes. Tal minimalismo cenográfico e dramatúrgico prepara o terreno para cenas eletrizantes. Nestas, ainda que passe raspando pelo panfletário, Tolstói conquista-me em definitivo.

Padre Sérgio pode ser lido com dois vieses principais. O leitor pode focar na pessoa de Kassátski, e aprender sobre o destino patético a qual estão destinados os seres orgulhosos. A segunda leitura, um pouco mais pobre por se aproximar das convicções temporais de Tolstói, é a da crítica à igreja. Prefiro o primeiro, mas não descarto o segundo; a psicologia dos títeres russos nos ensina muito, mas não devemos descuidar da história e das suas repetições.

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Pedante e decadente, ao seu dispor.
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