Publicidade e um lugar-comum

cesta de lixo

Semana passada eu me horrorizei com uma propaganda na traseira de um ônibus dos Transportes Coletivos Canasvieiras. O produto era uma cesta de lixo para instalação em áreas externas, e prometia deixar os vira-latas tristes, pois estes não conseguiriam derrubar o lixo de tão robustas lixeiras. Não que eu queira lixo espalhado pelas calçadas e pelas ruas, mas fazer publicidade usando, de forma tosca, um problema sério como o dos animais de rua? Que espécie de publicitário teve esta maravilhosa ideia?

Entretanto, eu não deveria me surpreender. A publicidade que observo nas ruas é de uma inspiração paupérrima. Os lugares-comuns se repetem de uma forma que já foi tediosa, mas agora passou a ser irritante. Está sem ideias para seu outdoor? Fácil, estampe uma mulher. Em trajes mínimos. Em propaganda de cerveja, é padrão, mas eu já vi mulheres estampando propaganda de enxada. Sou descendente de colonos, e as mulheres da minha família já pilotaram muita enxada, mas aquela moça deve ter sido apresentada à ferramenta durante a sessão de fotos para o anúncio.

Ainda que as mulheres sejam o lugar-comum clássico do mau publicitário, minha gastrite se acende quando vê anúncio com sub-celebridade ou celebridade. Propaganda do SENAI com fotografia do Gustavo Kuerten? Como assim, o cara se formou em algum curso lá e está recomendando? Propaganda de faculdade particular estrelada pelo Lázaro Ramos? Jura que ele fez algum EAD restaquera na tal faculdade, né? Propaganda de restaurante japonês ilustrada por um carinha da seleção sub-24, ou algo assim, de vôlei. O jogador de vôlei é um especialista gabaritado, deve ter um programa na tevê a cabo onde visita restaurantes orientais e se especializou em saborear peixe crú, e agora orienta-nos para que saibamos onde está o melhor sushi de Florianópolis. Os exemplos abundam, mas quero fechar este parágrafo com um calçado de nome quase criativo: Pegada. O calçado poderia ser vendido de várias formas, mas a “pegada” se refere a “pegar mulher”. Viu? Fechei um parágrafo pegando carona no anterior.

Antes de prosseguir, quando eu falo “mau publicitário”, não significa que eu acredite em “bom publicitário”.

Minha amostragem é baixa, dado que não assisto a televisão. Fico imaginando que a população deve estar anestesiada pela má propaganda. Apenas desta forma eu consigo aceitar que não tenha havido uma revolta imensa contra os imbecis que dominam as agências de propaganda.

Ressalto que resta um pouco de esperança em meu ser, esperança de que haja vida inteligente na propaganda. Todavia, eu sei que profissionais da área criativa, como designers, arquitetos e publicitários, muitas vezes são castrados e distorcidos por seus contratantes. Se for o seu caso, caro publicitário leitor, me escreva. Estou pensando em montar uma ONG para lutar contra a imbecilidade reinante nos outdoors, e quero o seu apoio.

***

O crédito da imagem é da Mariana Siebert, a qual agradeço profundamente por registrar e disponibilizar este ato falho de nossos pouco inspirados publicitários.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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