Warren Dean: A Ferro e Fogo

fogo

Warren Dean sugere, neste A Ferro e Fogo, que o manual de história aprovado pelo Ministério da Educação deveria começar desta forma: “Crianças, vocês vivem num deserto: vamos lhes contar como foi que vocês foram deserdados”. Dean, historiador norte-americano, narra a história da Mata Atlântica desde os seus primeiros registros conhecidos pelo Ocidente, ou seja, a partir da chegada das primeiras caravelas portuguesas.

Dean coloca a Mata Atlântica como uma personagem, uma personificação viva de um bioma, a sofrer de uma forma muito similar a que a personagem de Björk sofre em Dançando no Escuro. Nossa heroína já aparece, nas primeiras cenas, ligeiramente amarfanhada por seus habitantes tupis e guaranis. Daí em diante, é só porrada. Os primeiros colonos portugueses, monstros degredados, a derrubam com toda a vontade, assimilando apenas as facetas ruins dos silvícolas que aqui encontraram. Em ondas, portugueses prosseguem sendo os facínoras de um dos impérios mais idiotas de que se teve notícia, e a mata seguem sofrendo.

Depois da onda de extrativismo inicial, seguem-se as monoculturas da cana-de-açúcar, depois do café, e enfim no eucalipto. Este último, pelo menos, é um equívoco em quase tudo, exceto talvez pelo aspecto técnico, que chegou a ser avaliado pelo menos. Na cana e no café, nada se fez para preservar a fertilidade do solo e garantir safras futuras. Afinal, era mais fácil queimar um trecho novo de mata primária, e seguir em diante. Esta elite estúpida é a que domina nosso país até hoje, mimando e sendo mimada por imperadores, generais e políticos.

Certos trechos trazem lágrimas de raiva aos olhos, lágrimas carregadas de impotência diante de fatos escabrosos e argumentos desenvolvimentistas rasos, típicos da ditadura militar, que rechaçavam o ambientalismo pregado por estrangeiros porque estes só poderiam estar querendo que o Brasil não se desenvolvesse, não conseguisse adentrar as fileiras dos países ricos. Curioso é que este mantra ainda se repete na boca de muitos esquerdistas saudosos e simplistas. O Brasil queimou quase toda a Mata Atlântica, e nem isso foi suficiente para pagar nossa dívida externa, engordada a partir de décadas de corrupção.

Depois deste livro, passei a olhar para os morros e para outras formações geográficas com novos olhos, procurando imaginar o Éden que havia ali muito antes. Dean nos alerta de que não poderíamos viver no meio deste Éden, dado que somos criaturas da savana, e a Mata Atlântica não nos aceita em seu âmago. Talvez tenha sido esta rejeição que tenha tornado os colonizadores do Brasil tão violentos. Ou talvez eles tenham sido monstros imbecis desde sempre. Que diferença isto faz agora que não há mais nenhuma lembrança da exuberância de seis séculos atrás?

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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