Julio Cortázar: O Perseguidor

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O Perseguidor é uma história curta, um conto, de Cortázar. O escritor argentino, a partir do narrador Bruno, descreve Johnny, um saxofonista de cujo saxofone emana um jazz inovador, indescritível. Correção: Bruno, o crítico, se esforça em tentar descrever tal jazz indescritível, que assim permanece, conforme Johnny sublinha, a ponto de rasgar o papel com seu lápis imaginário, em seu último encontro com Bruno.

Cortázar descreve um ecossistema em torno de Johnny, do qual constam várias personagens tão familiares ao ambiente do jazz como o concebemos: a cantora voluptuosa, também caso do biógrafo; as mulheres e ex-mulheres do artista genial, coniventes e mesmo partipantes de seus deslizes drogadictos; os colegas de banda, decepcionando-se e enfim desistindo da estrela inconstante; a mecenas, neste caso portadora de título nobiliário, que não se importa em dispender francos para participar da atmosfera cool dos bares e dos ensaios; o biógrafo e crítico, um branco que se propõe a traduzir para os brancos menos letrados o universo de Johnny, o que nos leva a entrar em ciclo contínuo neste mesmo parágrafo.

Sempre me angustia este grande artista, e sua grande arte, quando embasados em uma personalidade, não raro, frágil, esquizofrênica, dependente, pueril, limitada em qualquer dos aspectos que não se referem à sua grande arte. Este desconforto atravessa O Perseguidor de uma capa à outra. Bruno, se isto serve de consolo, também sente este desconforto, amenizado pelo amor que o crítico alimentar pelo jazz e por Johnny. Talvez não por Johnny, mas pela música que emana deste.

A edição da Cosac&Naify, repiso no óbvio, é belíssima. As ilustrações de José Muñoz são perfeitas, adequam-se de modo ímpar à estética buscada por Cortázar. Talvez este conto pudesse ser melhor acondicionado a uma coletânea de Cortázar, como foi por ocasião de sua publicação original em 1959, mas esta edição, como volume independente, vive por si.

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Pedante e decadente, ao seu dispor.
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