Marcos Bagno: Preconceito Linguístico

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Cena um, algum dia em 1994, durante a aula de Redação I do curso de Engenharia Elétrica: O professor, que dizia ter sido parceiro de algum compositor de MPB, está entregando as primeiras redações da turma. Dias antes, ele havia comentado que a turma deveria se preocupar em se exprimir, e que o corretor do redator resolveria picuinhas como ortografia, e, não sei se ele previa isto, concordância. O discurso, após a prova, mudou, e ele passou a considerar que a turma era composta de um material menos fértil do que ele imaginara. Lembro de ter ouvido o professor usar alguns adjetivos pouco honrosos para descrever o desempenho de alguns, o que me faz pensar se não teria sido mesmo um deslize ético da parte.

Cena dois, alguns anos depois, experimento, inicialmente, dor física ao contemplar erros grotescos em alguns currículos, seguida de alguns espasmos de diversão, dos quais não me orgulho em absoluto. Acontece que a boa expressão em português é necessária no meu ramo de trabalho. Eu digo “boa expressão”, notavelmente escrita, ainda que sem a necessidade de malabarismos estéticos ou conhecimento de regras gramaticais. A comunicação se desenvolve em manuais, instruções de produção, mensagens trocadas com fornecedores ou parceiros, e relatórios de ensaios, ou seja, nada demais, embora eu realmente não considerasse muito seriamente a possibilidade de entrevistar um cara que escreve em seu currículo que “adora desafils”. Ressalto que ele não foi desclassificado especificamente por este deslize ou por seu endereço de email, que era algo do tipo juniorsurf1998@hotmail.com; é que sua formação realmente não batia com o cargo.

Curioso é, depois de todos estes, dar de cara com este volume escrito por Marcos Bagno, Preconceito Linguístico, e descobrir que eu, entre outras pessoas de meu convívio, sou um preconceituoso. Explico: ainda que eu não me aventure nas páginas das gramáticas, o que é demonstrado por minhas notas pífias em língua portuguesa no colegial, sou um leitor voraz. Assim, por repetição em leitura de obras bem escritas, absorvi situações suficientes para construir uma expressão escrita de algum valor. Tivesse eu me atido mais fielmente às “novíssimas” gramáticas, e eu poderia praticar babaquices mais amplas no ramo do preconceito.

Bagno nos explica que muitas pessoas se amarram a gramáticas para fazer-se paladinos de um pretenso conhecimento da verdadeira língua portuguesa. Estes arautos da pureza do idioma transvestem-se em cavaleiros cruzados, lutando por igapós putrefatos à beira dos grandes mananciais vivos e mutantes da língua, conforme analogia do próprio Bagno. Programas televisivos com estrelas da gramática, que fizeram sucesso a partir da década de 90, são a faceta mais clara e daninha desta tendência.

Como seres arianos impolutos, os defensores de uma versão mumificada do idioma, põem-se a defendê-lo de mutações, que lhes parecem mais aberrações. O idioma muda constantemente, adaptando-se a seus falantes, e as gramáticas correm atrás, sem sucesso, tentando congelá-lo. Os defensores das gramáticas normalmente são conservadores; eles querem conservar um mundo pretérito; alguns desejam os militares de volta ao poder, alguns não entendem como deixaram negros entrarem nos banheiros dos brancos, outros desejam que o ensino de uma única religião seja aplicado nas escolas, e um grupo todo especial de retrógrados gramáticos deseja que ainda se escrevesse muitas palavras da língua portuguesa com “ph”.

O conservadorismo gramatical é uma forma nefasta de preconceito. Por este meio, são desclassificados nordestinos e pobres, ou quaisquer falantes de um dialeto da língua portuguesa que não um dialeto imaginário que se cristalizou na forma de uma gramática do Pasquale. Bagno oferece muitos exemplos de livros onde “erros” são desmascarados, e seus perpretadores devidamente classificados com nomes poucos honrosos, como “imbecil” ou “idiota”, sem falar quando os autores conservadores se põem a exercitar outro de seus vícios, o especismo, resultando em nomenclaturas como “anta” ou “burro”.

Bagno expõe uma lista de mitos sobre língua portuguesa, e depois passa a destrinchar colocações infelizes dos pretensos legisladores do idioma. Ao fim, resume um programa de combate ao preconceito linguístico, que poderia ser aplicado nas escolas Brasil adentro com grandes ganhos para a auto-estima de pessoas que, apesar de saberem se expressar bem em seu idioma, não conseguiram absorver as regras, muitas vezes bizarras ou não-aplicáveis, das “novíssimas” gramáticas.

Ainda que eu admire quem escreve bem, não significa que eu não tenha cometido os chamados “erros” de português. O que importa é que você tenha entendido minha mensagem. O que não quer dizer que eu não vou reparar na forma como está escrito o seu comentário, logo aqui abaixo, me xingando.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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4 respostas para Marcos Bagno: Preconceito Linguístico

  1. Christian disse:

    Talvez interesse:

    «Adornando de terminologia técnica uma argumentação que no fundo não passa do habitual apelo ao ressentimento populista contra os adeptos do purismo vernáculo, supostamente também senhores do capital, o autor [Bagno] nem de longe dá sinal de perceber que, afrouxada a norma portuguesa, o que haverá de predominar não será o democratismo igualitarista das falas populares, autoneutralizantes por sua multiplicidade mesma, e sim a influência ordenadora da norma anglo-americana, ocupando substitutivamente — e usurpatoriamente — o lugar da regra vernácula. Isso aliás já vem acontecendo, como se vê pela alarmante disseminação do uso de palavras portuguesas montadas segundo uma sintaxe inglesa — ‘amanhã estarei indo viajar’ —, o que já não é mais a corriqueira assimilação de vocábulos estrangeiros e sim precisamente o contrário de uma assimilação: é uma adaptação do material nacional à forma dominante estrangeira, é ser assimilado, é fazer o papel da alface na fisiologia do coelho. »

    • gilvas disse:

      sei que deve ter sido escrito depois da abertura, mas soa anos setenta, aquele ufanismo brasileiro no embalo da copa de setenta. o argumento do livro do bagno responde a esta questão também, basta o questionador se dispor a ler o volume, que é fininho, nem dói.

  2. gilvas disse:

    a.
    até onde eu sei, é a única engenharia que tem redação no currículo. o que dá margem a muitas elucubrações;

    b.
    este cara tem um jeitão de ser hipster 047; confere?

  3. renatoturnes disse:

    1- tem redação no currículo de Engenharia Elétrica. (!)
    2- um dia recebi um currículo de um cara cujo email para contato era: toddynhoehmelhorquenescau@hotmail.com.

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