Lollapalooza 2014: Sábado

lollapalooza-brasil-2014-line-up-bandas-

Interlagos foi palco de um épico de dimensões imoderadas, a qual não faltaram cores trágicas. Antes disto, entretanto, algumas considerações sobre o festival. Primeiro, eu não tenho mais idade para festivais. Disputar, com as novas gerações, espaço com um mínimo de visibilidade, já foi uma tarefa divertida; hoje em dia é apenas exasperante. Depois há detalhes pequenos, embora críticos: custava colocar uma indicação do nome do palco junto ao próprio? Havia muita gente perdida, sem saber direito onde ficava o palco do show que lhe interessava.

Dos shows maiores, o Phoenix foi de longe o mais otimista e sorridente, ou seja, que saco aquele bando de descendentes do Gerard Depardieu pulando, felizes e contentes, com seus instrumentos. Era uma turma do barulho, uma molecada do ié ié ié, e até o tecladista parecia ter tomado suco Gummi. Não que o Phoenix não tenha seguidores, nem que os mesmos não tenham se esgoelado sobre a cama de teclados de timbre duvidoso, mas, obviamente, Phoenix não é para mim.

Não, eu não vi Lorde. Too much hype. E o show era na mesma hora que o Phoenix.

Eu esperava mais do Nine Inch Nails, mas as viúvas noventistas, aparentemente, não. Camisetas do NIN só perdiam em número para as do Muse; se somássemos a idade dos portadores das camisetas em cada grupo, entretanto, o número penderia fatalmente para o time dos anos noventa. Trent Reznor, ou sua versão parruda, suou, pulou, gritou, e o coro dos trintões seguiu. A banda, entretanto, é meio limitada tecnicamente. Os climas dos discos só vinham à tona nos números puramente eletrônicos; no restante, era um mesmo timbre de guitarra cavalgando, teimoso, sobre a bateria espancada. O som não ajudou; parecia haver uma barreira abafante, que abria-se apenas de vez em quando. Faltou um palco mais interessante também, mas suspeito que parte da estética industrial-punk de Reznor tenha este viés mais rudimentar.

Diante do palco do Muse, uma multidão já estava postada. Como de praxe, era só passar um roadie que a turba despejava aplausos e apupos. Ou durante os testes dos ejetores da cortina de fumaça em frente ao palco. Quando a banda finalmente adentra o palco, fica óbvio que as más notícias sobre a voz de Matthew Bellamy são verdadeiras. A banda, com o suporte de um tecladista/guitarrista, está afiadíssima. O som está perfeito, ou quase. E a voz de Bellamy não vem.

Esta deve ser a sequência mais trágica do festival. Bellamy, barbado, caminha pelo palco, esbanja técnica na guitarra, sendo um combatente à altura do magnifíco baixista do Muse. Mas a voz não vem, seus ombros estão caídos. O vocalista perambula, vítima de uma maldição, herói debelado em uma tragédia grega. Chega a dar dó. Dele e de mim, que só consigo pensar “porque diabos isto acontece justo quando eu tenho a oportunidade de ver o Muse ao vivo?” O baixista tenta apoiar, se esforça em seus próprios vocais, o que só torna ainda mais dolorida a ausência da voz principal.

A banda homenageia uma de suas influências, tocando uma música do Nirvana. O que faltava vir abaixo, ou para cima, da plateia, vem. É revelador que a música de Kurt Cobain levante tanto a audiência; é justamente nas músicas da fase influenciada pela banda norte-americana que os não-fãs, o pessoal que veio para ver “rock”, pula mais. Há espaço para diversão intensa, entretanto, no hino de arena Madness, que parece que vai fazer causar um abraço coletivo na imensa plateia.

Bellamy segue contando os minutos para o fim do show. A voz parece que vai voltar em Hysteria, magnífica, mas é só efeitos dos vocais de apoio. Em mais de um momento os trinados originais, de algumas canções, são substituídos por simples exclamações do trecho da letra. O saldo é positivo, mas o Muse ainda me deve um show de verdade.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Música e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s