Seymour Melman: Depois do Capitalismo

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E se alguém te dissesse que, no frigir dos ovos, a forma como é gerenciada a economia norte-americana, atualmente, quase não difere do modelo adotado pelo monstrengo estatal da finada União Soviética, seria tão difícil de acreditar? Seymour Melman acha que não, considera plenamente plausível, quase óbvio. São economias centralizadas, movidas pelo militarismo, que implica em maximização de custos e acumulação estúpida de artefatos improdutivos, e que buscam, em seu cerne conceitual, promover a desindustrialização dos países onde são aplicadas.

Destes modelos, que países periféricos buscam copiar, derivam a concentração de poder nas mãos de uma classe dirigente, os gerentes, descendentes em linha reta dos senhores feudais. Pela ótica de de Melman, o capitalismo não muda a estrututura social vigente no feudalismo, mas apenas altera as formas pelas quais os trabalhadores são oprimidos pelo capital. Ou espremidos, numa apropriação quase poética do termo.

Em esclarecedoras seiscentas páginas, Melman destricha os mecanismos perversos através dos quais uma cultura arraigada de gerencialismo rouba a autonomia dos trabalhadores, diminui a produtividade e destrói os empregos locais, empurrando-os para países periféricos, onde as leis trabalhistas não existem ou são frouxas. O autor destrói o mito de que o custo de mão de obra é preponderante na construção dos custos do produto; esta seria uma visão mal digerida dos ensinamentos de Taylor, obsoleto diante do, potencial, altíssimo de mecanização das etapas produtivas. Mesmo os escritórios são alvo de intensa mecanização, e a democracia no ambiente de trabalho ajudaria imensamente a melhorar a produtividade e eliminar as funções estúpidas de muitos postos de trabalho.

O modelo econômico vigente se presta apenas a prover poder aos gerentes e lucros aos shareholders (acionistas). Ainda que haja uma cultura crescente de observação aos stakeholders (grupos envolvidos e/ou atingidos em determinados empreendimentos), o movimento ainda é tímido, servindo mais à mitigação, a calar a boca destes grupos sociais em vez de dialogar com os mesmos.

A alienação do trabalhador é extremamente poderosa. Observei um fato peculiar: O trabalhador, quando ascende à classe média, pode aspirar a níveis mais elevados na pirâmide de Maslow. Isto significa, geralmente, níveis mais altos de consumo, mas também a cautela em relação ao futuro, o que implica em buscar investimentos para uma futura aposentadoria. Neste momento, o pequenino investidor vai juntar seus caraminguás, e buscará fundos de investimento. As opções são geralmente o mercado de ações ou fundos de especulação, como o agronegócio ou imóveis. Raramente o trabalhador vai investir seu excedente em atividades produtivas, mas sim em especulação vazia e predatória.

Isto nos leva a um tópico revelador: a falta de solidariedade entre os trabalhadores do mundo. “Ora, isto é papo de comunista!”, alguém dirá, e Melman responderá que o comunismo soviético, por exemplo, nada mais foi do capitalismo de estado disfarçado com doses monstruosas de propaganda. Um exemplo mais próximo é a China “comunista”; a diferença entre o “capitalismo” e o “comunismo” é que o primeiro trata de acumulação de lucros enquanto o segundo fala de acumulação de poder. A capa que encobria a União Soviética era tão bem construída que até a CIA acreditou nela; brigavam entre si, não porque fossem opostos, mas por serem tão semelhantes, grupos separados e similares buscando a hegemonia militar e a opressão das classes baixas.

Melman dedica muito espaço a descrever o processo absurdo de acumulação de artefatos militares. A capacidade de overkill, de ambas as potências da Guerra Fria, envergonhará governantes em um futuro distante. Os silos, pateticamente lotados de ogivas e foguetes, deixam os doentes acumuladores, aquelas pobres criaturas exploradas em programas de TV a cabo, no chinelo. Estes generais paranóicos, lutam pela guerra como a indústria farmacêutica luta pelas doenças, às custas do investimento que é necessário para tornar um mundo melhor.

A versão brasileira tem vários problemas de tradução, que nem é creditada a um tradutor específico, mas a uma empresa. Sinal dos tempos, sintoma dos problemas que Melman descreve em seu livro. A tradução, todavia, não empana o brilho deste livro esclarecedor, básico para a compreensão do trabalho nestes tempos bicudos.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para Seymour Melman: Depois do Capitalismo

  1. Não estou defendendo com unhas e dentes a União Soviética, mas fico com 3 pés atrás quando aparece algum teórico que insiste em dizer que o regime da URSS não era muito diferente dos EUA ou da Alemanha nazista. Querendo ou não, o bloco oriental foi, mesmo com todos os seus contras – da Stasi aos Gulags e penteados do Cartman norte-coreano -, a única experiência mundial que pôs em relevância a classe trabalhadora. Tanto que um dos motivos do seu afundamento foi a estagnação econômica das políticas de pleno-emprego forçado mesmo nos anos 80.

    • gilvas disse:

      melman fala especificamente do modelo econômico industrial, pontuando a baixíssima autonomia do trabalhador em ambos, que são/foram orientados ao militarismo e à acumulação.

      também é específico em comparar os estados unidos e a união soviética; ele praticamente não fala da alemanha nazista em seu texto. ou seja, nada de simplificações a la von mises.

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