As Dores de Aldous Huxley

o homem sofre.

o homem sofre.

Estou no terminal de integração do Rio Tavares. O televisor, entre uma propaganda de loja de sapatos de gosto duvidoso e ofertas numerosas de empregos em tele-marketing, me informa que o próximo ônibus viável sairá em mais de vinte minutos, lotado um conjunto de pessoas entre as quais três quartos continuarão votando na oligarquia conservadora que manda nesta cidade.

Abro meu livro, leio algumas palavras, e desisto um pouco. Vou à prateleira do programa de leitura do sistema de transporte coletivo. Passeio os olhos sobre os livros didáticos obsoletos, alguns sem capa, e vislumbro as onipresentes apostilas de concursos que eu nem imaginava que, ainda ou já, existiam. Sigo mais um pouco, e estaco, assustado, diante de uma lombada familiar.

É uma edição da Editora Globo para Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Guardo meu livro. Maus pensamentos me agitam. Li este clássico na edição emprestada por um amigo, ou seja, ele é uma ausência na minha prateleira de fetiches livrescos. Abro o livro. Há um longo prefácio, algo previsível em um livro tão fundamental. O tom do discurso, curiosamente, também é familiar. Prossigo lendo. Um conservador. Fico em dúvida sobre qual deles, e prossigo. Há algumas indiretas, mas é um lamento específico, algo sobre “intelectuais e universidades vedarem o acesso de católicos a suas respectivas instituições”, que me faz folhear rapidamente o tal prefácio até a palavra final, de modo a revelar, ou apenas confirmar, a identidade de seu autor.

Não, queridos leitores, eu não vou manter este suspense. O autor do prefácio é Olavo de Carvalho. Ele conversa com a obra de Huxley com a mesma intimidade falsa e forçada com que Fausto Silva conduz seus convidados, todos seus amigos desde a tenra infância, nas tardes macilentas dos domingos da sonâmbula população brasileira. Olavo coopta, com suas palavras doces, tal qual uma serpente do paraíso de onde seus supostos ascendentes foram expulsos, as ideias de Huxley a se converterem em uma litania conservadora.

Deixo o livro de volta na prateleira, como num repelão. Passadas duas semanas do ocorrido, culpo-me por não haver cortado fora aquelas páginas do prefácio antes de retornar o livro à prateleira. Maldita impulsividade. O livro deve ter sido pego por outra pessoa, talvez uma mente jovem e sã tenha sido influenciada pela torrente pedante de preconceitos que emanam da pena de Olavo, e eu poderia ter evitado que esta gota adentrasse um oceano de ignorância que ameaça nossa nação democrática e teoricamente laica.

Estou pensando em me redimir com uma carta de apostasia.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para As Dores de Aldous Huxley

  1. Luiz disse:

    Admirável Mundo Novo foi realmente um livro muito marcante pra mim, e de verdade acho bem revoltante essa intervenção duvidosa dessas editoras, como esses clássicos lançados pela Globo. Mas é também bem surpreendente que você tenha encontrada um livro desses no terminal hahaha, achei bom.

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