Pessimismo, epidemia nacional

pessimismo

Pessimismo. Eu não tenho certeza de que seja a palavra certa para descrever o sentimento que emana de diversos discursos que ouço por aí. Familiares, colegas, transeuntes, prestadores de serviço, artistas, um bocado de cada classe, um campo amostral nada desprezível. São pessoas comuns, que levam vidas normais, recebem salário, têm casa e comida.

Eles reclamam. De tudo. Do preço do pão, dos vizinhos, da televisão, do trânsito, da qualidade dos produtos, dos salários baixos, da corrupção… A lista segue, pode dar voltas ao planeta ou chegar a corpos celestes próximos; o céu não é o limite. Tudo está ruim, ninguém presta, o diabo são os outros: quem não pertence à minha raça, quem não pertence à minha família, quem não tem a minha idade, quem não é da minha classe, quem não torce para o meu time. Há círculos de ódio à vontade, é possível classificar qualquer pessoa a um grupo odiável, e manter-se, ao mesmo tempo, fora dele. Simples assim.

A metade siamesa desta laranja de ódio, a tampa da panela nesta receita de falta de amor é inação, temperada com a ignorância, que impede o odiador de perceber que o buraco é mais embaixo. Vamos aos exemplos do parágrafo anterior. O preço do pão, ou da porcaria de pão francês que se vende nas padarias. A ignorância nubla a percepção, tapa os olhos diante do fato que o glúten é um péssimo alimento, e que o pão francês traz quase nada de nutrientes. Também é ignorância desconhecer que o trigo é importado em grande parte, e que o Brasil possui opções muito mais interessantes para substitui-los, como o milho ou a mandioca.

Ah, a corrupção. Este câncer da grande nação brasileira. Que existe. Um dos “valores” que o Brasil compartilha com seus colegas no grupo apelidado do “BRICs” é justamente o alto índice de corrupção. Combater a corrupção é essencial para o avanço da nação e para a melhor distribuição da renda, mas exige muito conhecimento e leitura de letras miúdas. acusar uma ou outra pessoa pode ser um ato leviano. Quer ajudar? Primeiro, para de papagaiar bobagens de revistas sensacionalistas como a Veja. Segundo, solicite o balanço da prefeitura do seu município, que é garantido aos cidadãos pela política de transparência. Há muita corrupção a ser investigada na sua localidade, e isto se reflete no modo como se faz política nas altas esferas, que não são acessíveis ao cidadão comum de outra forma.

A televisão é um dos grandes alimentadores deste pessimismo. O jornalismo perdeu seu viés investigativo, e seu olhar crítico se resume a repetir uma cantilena negativista. Tudo pode ser melhorado, sem dúvida, mas isto deveria ser motivo para colocarmos mãos à obra, e não para ficarmos resmungando num sofá. Os donos da televisão, entretanto, não querem ação. Porque ação significa sair do sofá, e, portanto, menor audiência. A televisão quer que você fique bem onde está, resmungando e reclamando, e não fazendo nada. Desliga a televisão, tira este encosto da tua vida, e depois a gente conversa mais.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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