Alan Pauls: O Passado

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Há dois filmes, muito bons, que se chamam, na versão brasileira, O Passado. Um é dirigido por Hector Babenco, e outro, por Asghar Farhadi. Este livro, de que falarei, inspirou o primeiro dos filmes.

Alan Pauls é uma grata surpresa. Escreve um romance de R maiúsculo, uma obra de quase quinhentas páginas, vigorosa e instigante. O discurso é o de um observador onisciente, mas nunca deixa efetivamente de partir da ótica de Rímini, o protagonista que menos age do que se deixa debater pelos eventos.

Rímini é uma marionete quase todo o tempo descrito no livro, exceto quando decide deixar de lado a passividade. Nestes momentos, consegue agir de forma indescritivelmente desastrada, causando sólidos desgostos ao leitor. Este detalhe não rouba o atrativo do livro, pois Rímini navega por uma sequência épica de eventos. Não se trata de um bobo, como Forrest Gump, passeando alheio pela História que corre, mas de um heroi perdido em uma epopéia pequeno-urbana, dessas típicas do cinema argentino.

O filme, obviamente, não consegue fazer jus ao texto. Captura algo de sua essência, mas deixa escapar grande parte do prazer contido na narrativa. A prosa de Pauls é riquíssima, vai por-se a ombros com outros grandes escritores, como Michael Ondaatje, com quem compartilha o costume de derivar, de um parágrafo qualquer, uma linha nova de narrativa, biografias extensas e contundentes que emanam de lembranças. Como se o espírito de uma conversa encarnasse no texto, mas sem as facilidades desnecessárias da literatura de blogueiro.

Pauls encanta também em sua insistência monumental na criação de um Jeremy Riltse convincente, que se encarrega de criar todo um universo particular para o casal Sofía e Rímini. Ainda que o filme de Babenco mostre que esta incursão profunda pode ser descartada para a compreensão do vínculo do casal, o romance não o permite, arriscando tornar-se até mesmo tedioso. Esta vertente pode ser vista como um paralelo estrutural com o motor da trama, a saber, a insistência doentia de uma mulher que ama demais.

Vale perguntar então se Pauls incorre em misoginia ao pintar uma Sofía tão perigosa, um nêmesis de tudo o que Rímini constrói longe dela. O romance pode ser analisado sob esta ótica, mas eu o farei em algum momento posterior, como uma daquelas ondas que uma grande obra continua a causar no lago de nossa existência anos depois de ingeridas.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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