A Ditadura Vegetariana

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Almoço no restaurante Lila, que fica dentro do Mercado São Jorge, pertinho de onde moro. Estou terminando meu prato de almoço, criativo, equilibrado e criativo como de praxe, quando chega o acompanhante do cara que está na mesa ao meu lado.

Primeiro, as amenidades, e, em seguida, a dúvida sobre continuar a conversar sobre algum projeto ou almoçar. O recém-chegado olha para a parede, onde está afixado o cardápio do dia. Lê, balbucia parte do escrito, mas não acredita que não haja nenhuma opção de carne a servir. Um tanto revoltado, ele chama a garçonete, e pede que ela confirme o que leu na parede. Ela confirma que se trata de um restaurante vegetariano, para desconsolo do cara, que eu já rotulo mentalmente como O Cretino. Mais alguns lances de conversa, tentativa do amigo de amenizar a situação dizendo que é um restaurante orgânico, e Cretino aceita o seu destino alimentar de hoje.

Porém, cretino que é cretino, se não pode comer carne, tem de se intoxicar de outra forma, certo? Certo. Ele sugere que se tome vinho, que ele viu em uma das bancas de produtos do mercado. Cretino reforça, com escárnio, que se trata de vinho orgânico, e que não consegue evitar, ele morou em Paris, e franceses sempre tomam vinho ao almoço.

Corta para Paris, no ano passado, quando eu e a Mari estivemos por lá durante uma semana. Ficamos em uma rua maravilhosa, bem típica, no Marais. Curiosamente, havia, a menos de 50 metros da porta do nosso apartamento, uma loja all-vegan extremamente completa, que vendia até alguns itens absurdos, como camarões de tofú. Acho curioso o vegetariano que não quer mudar, que quer deixar de comer carne e derivados substituindo-os por sucedâneos de soja. Ele tem a chance de se alimentar melhor, e escolhe continuar comendo queijo e mortadela de mentirinha.

Entretanto, logo descobri que Paris é um horror alimentar. Consome-se carne a rodo, e os charmosos bistrôs, que abundavam nos quarteirões ao nosso redor, se orgulhavam de preparações muito especiais de foie gras. O francês adora carne e derivados, e diversos locais exalam o cheiro nauseante de décadas de carne sendo preparada. Tal realidade sabotou nossos planos de ter um jantar romântico em algum local charmoso.

Volta para hoje, em Florianópolis. Cretino provavelmente já era esta pessoa lamentável antes de ir para Paris, e a capital da França não tem tanto culpa por ele ter se tornado um onívoro insensível e babaca. Talvez ele só tenha aprendido a tomar vinho em Paris, o que é bom se moderado. Eu perdoo quase tudo a Paris, e finjo que não é a capital do luxo e toda aquela babaquice, assim como saio assim que termino meu prato, e deixo Cretino resmungar sobre uma possível Ditadura Vegetariana.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para A Ditadura Vegetariana

  1. Mayara disse:

    Adoro comidas veganas, apesar de não ser vegan nem vegetariana, mas vejo que muitas pessoas que aderem a esse estilo de vida, ficam fissuradas, como se comer carne fosse a coisa mais errada do mundo.
    Lendo esse post, fico muito triste em ver que ao mesmo tempo que pessoas melhoram a sua qualidade na alimentação, pioram o seu senso crítico.
    Gente, não é deixando de comer carne que as pessoas deixam de ser cretinas, como foi taxado o cara que não adere a esse estilo de vida!

    • gilvas disse:

      boa tarde, mayara.

      percebo que talvez você não tenha entendido o meu texto, ou esteja se sentindo ameaçada por ele, o que é compreensível. fico extremamente feliz que você goste de comida sem carne e sem crueldade. o texto é justamente sobre pessoas intolerantes que comem carne, e acham absurdo que um dado restaurante não sirva carne de nenhum tipo. o cretino é um cretino por não tolerar a existência de um restaurante vegetariano, e não porque ele coma carne.

      abraço.

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