David Quammen: O canto do dodô

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O Canto do Dodô, com suas setecentas páginas e um assunto nada trivial, biogeografia das ilhas, assusta. Mas há de ser nada: o texto flui tranquilamente. Quammen é um divulgador científico habilidoso, mescla relatos de campo com anedotas de gringo turista perdido, teorias complexas bem expostas com revisão histórica estreladas por titãs como Wallace e Darwin.

Quammen, por sinal, não simpatiza muito com Darwin; Wallace é que merece todos os louros pela teoria da evolução das espécies. Polêmicas à parte, gargalhei horrores com a parte em que o autor descreve os apuros que os defensores da arca de Noé tiveram de enfrentar à medida que dezenas de espécies de animais surgiam nas terras “descobertas” pelos europeus no século XVI. Justificar a bíblia já era difícil naquela época.

Com seu texto bem engendrado, Quammen tem o poder de esclarecer conceitos complexos no campo da biologia, ao mesmo tempo em que se posiciona entre seus colegas biólogos. São décadas discutindo uma questão aparentemente simples: Qual é o tamanho mínimo para uma reserva que seja significativa de um dado ecossistema? É curiosa a incursão da biologia no mundo dos números, uma tentativa de equacionar váriaveis dispersas e conflitantes em experimentos que beiram o bizarro, como o fumigamento de minúsculas ilhas na costa da Florida. Como se o mundo natural pudesse ser destrinchado em uma planilha, como se cada espécie pudesse ser transformada em cifras. Se nem a economia consegue medir as pessoas, imagino o quanto sofreram os biólogos para tentar esta tradução improvável.

Termina o livro, e a sensação é de que ainda não há saída, de que o ser humano vai continuar devorando o planeta todo, cobrindo ecossistemas inteiros com lixo e dor, e de que não há nada a se fazer. O livro entrega flagrantes algo involuntários do nível de destruição a que estamos assistindo quando fala de um experimento, na Amazônia, em que foi aberto um pasto tão grande, mas tão grande, que dentro dele cabiam ilhas quadradas de floresta de até cem hectares, e entre ela havia distância suficiente para que as populações dentro de cada quadrado ficasse efetivamente ilhada.

Quammen me apresentou um conceito simples, mas que me deu o que pensar. Ingenuidade ecológica. Os dodôs não eram dóceis, eram ecologicamente ingênuos. Eles simplesmente não entendiam que seres humanos pudessem representar ameaça a sua integridade. Pensei no presente, no cartaz do Aécio que eu vi ontem, algo como “Vai dar Aécio”, que ecoa a patuscada tucana da eleição passada, quando o Serra encarnou um taradão. A direita brasileira passou tanto tempo protegida em seu ninho de poder que não consegue imaginar-se sendo criticada. Suas estratégias eleitorais mostram isso: discursos ruins, ausência de projetos sólidos, muitas frases de efeitos e pouca ação. É uma pena que, mesmo com estas estratégias pobres, os tucanos não estejam nem perto de ser extintos. Talvez não sejam mais uma população viável, mas, deus, como são longevos! Se bem que o Serra, dizem, é um ser sobrenatural dos Cárpatos, mas aí é outro problema.

O Canto do Dodô é um livro essencial para qualquer um que se preste a levantar uma bandeira verde.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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