A Copa do Tatu

tatuquatro

Apesar de toda a gritaria e de algumas demonstrações de simples má educação, houve copa. E como não haveria? O Brasil é um dos BRICs, uma das facções de novos-ricos que surgiu recentemente. O novo-rico precisa se afirmar, mostrar, mesmo que passando ridículo, que ascendeu. Então esbanja, gasta o que não tem em coisas absurdas. Veja o que fizeram nossos colegas russos nos jogos de inverno: gastaram, desalojaram populações locais, passaram por cima de legislações ambientais, tudo para o show não parar.

O novo-riquismo não é uma exclusividade da classe dirigente, ela apenas reflete os anseios de uma faixa da população que ascendeu à classe média, e também os anseios de boa parte da população, que quer mostrar que o Brasil é grande e rico, que podemos, sim, bancar grandes projetos, somos sérios ou, pelo menos, queremos ser considerados assim. É natural uma nação passar por isso, e espero que logo não precisemos mais jogar na cara do recalque que somos ricos.

Outro choro recorrente clama contra a corrupção, e eu fico confuso. Será que estas pessoas não sabem que o futebol é apenas business as usual? Pensam elas que o futebol pode ser um instrumento saudável de ascensão social consistente? Seriam assim tão inocentes? Se forem tão inocentes assim, elas podem acreditar até na FIFA como instituição decente e correta, e não o ninho de ratos corruptos, pusilânimes que se esbaldam em nepotismo e fraude para fazer do futebol mundial o que ele é.

Demos carta branca para a FIFA, cedemos tudo o que eles solicitaram, ou não teríamos aqui um dos maiores espetáculos da Terra. As regras são simples. A FIFA é dona de um evento com potencial dramático, desenhado para extrair sustos dentro de fluxos tensos de suspense, com reviravoltas de dar inveja a montanhas-russas gigantes. O espetáculo vale o preço? Eu não sei dizer, até porque não o aprecio. De onde assisto, enxergo os fios que mantêm os bonecos se movimentando, os detalhes dos cenários, as regras milimetricamente estudadas e planejadas. Como cantava o Depeche Mode em 1983, everything counts in large amounts.

Desta forma, caro espectador da copa do mundo de futebol, não esbraveje se vais assistir aos jogos. Coerência, por favor. A copa do mundo é uma festa, e em festas não se economiza, não se racionaliza; se fosse para ser de outra forma, não se chamaria “festa”, mas “rotina”. Deixe para resmungar em outra hora, e aproveite a festa pela qual eu também estou pagando, mesmo sem participar.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para A Copa do Tatu

  1. Clara disse:

    É, e o povo sempre foi e sempre será fantoche…uma lástima para quem tem consciência e não pode mudar os bonequinhos….

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