Tony Fletcher: The Smiths – A Biografia

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Por algum curioso lapso da disponibilidade de discos ou da vontade humana, eu fui um fã do Morrissey antes de ser um fã dos Smiths. Creio que, independente de quando começou o processo, fãs die-hard dos Smiths são antes fãs do Morrissey. Que é um baita de um pé-no-saco.

Tony Fletcher se propõe a traçar as raízes irlandesas de Manchester, e a própria formação da cidade em sua biografia dos Smiths. É uma abordagem correta, linear, que permite um andamento controlado e consistente à narrativa. Ela funciona muito bem para explicar o que moldou Marr, Rourke e Joyce, e explica certos temas nas letras de Morrissey, e é essencial para entender plenamente o atropelo em que os Smiths se formaram e se desfizeram.

O passado pode explicar muito bem a psique dos três instrumentistas. Irlandeses da classe trabalhadora, enxergam o estrelato como forma de escapar, sendo estrelas do rock, dos destinos de seus pais e tios, ainda mais em uma Inglaterra engolfada pelo governo Tatcher. Morrissey, entretanto, é um ermitão cheio de manias, e suas letras refletem muito mais do que as agruras de quem cresceu no ambiente sorumbático de Manchester. Sua história, ainda que tenha de se encaixar no universo mancuniano de trabalhadores braçais, deve mais às prateleiras e às paredes do seu quarto. Marr, por seu turno e em comparação, é uma cria de seu espaço, como comprova sua parceria com as nulidades conhecidas como irmãos Galagher, que assolaram o mundo com sua irrelevância musical nos anos noventa.

Finda a descrição do arcabouço geográfico, histórico e sociológico, Fletcher nos leva até o momento de eclosão da parceria Morrissey/Marr, um singelo momento de glória para a música popular. Deste ponto em diante há torvelinhos e redemoinhos como há em qualquer banda de rock que se preze. As diferenças dentro da banda logo fariam a maionese desandar, como já se sabe.

Confesso que fiquei do lado do Morrissey quando da querela deste com Mike Joyce, mas este livro me fez mudar de ideia. A incompetência de Morrissey e Marr para gerenciar o que quer que fosse os levou a ignorar a lição de bandas como o REM, que dividiam o dinheiro por igual, incluindo as composições. Os Smiths eram a criação de déspotas topetudos, que monopolizaram os direitos autorais, e dividiram injustamente (80% versus 20%) os lucros com apresentações e discos. Junte a isso a teimosia e a incompetência no convívio do vocalista/letrista, e qualquer Mãe Joana vai te dizer que a banda durou muito mais do que se poderia esperar.

Livros assim são devorados, e não lidos. Este ardor, após quinhentas páginas, me deixou uma bela ressaca moral. Ainda que a historia te capture intensamente, fico pensando se eu não deveria ter ficado com a música. “Apenas”.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para Tony Fletcher: The Smiths – A Biografia

  1. gilvas disse:

    mentira, rê: eu os amo ainda mais, imperfeitos como foram. muito obrigado pela presente!

  2. gilvas disse:

    eu ainda amo os smiths, apenas um pouco menos do que amava antes. 😉

  3. renatoturnes disse:

    Ai tá, desculpa.

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