Jon Krakauer: No Ar Rarefeito

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Creio que todos já experimentaram aquela sensação póstuma de que poderia ter persistido ou ter agido diferente, mas havia algo a impedir-lhe de seguir ou fazer a coisa certa. Como naquele show em que se deixa a platéia antes do final do bis, aquela técnica que poderia ter sido melhor executada em um exame de faixa, aquela questão a qual poderia ter sido dada mais atenção naquela prova decisiva. O elemento comum nestes eventos é que a percepção póstuma da situação deixa de fora as sensações de cansaço, tédio, ansiedade, medo, todo um baú cheio de entraves físicos e mentais que agora, a uma distância tranquilizante, já não sentimos.

Jon Krakauer escreve No Ar Rarefeito desta perspectiva, distante do terror que assolou a ele e aos outros alpinistas que enfrentaram uma tempestade medonha no ponto mais alto da Terra. Página após página ele tenta exorcizar os fantasmas daqueles dias assustadores, onde até os poucos milagres tomam feições de filme de horror. A cada página voltam as lembranças das falhas e das faltas, das distrações e das escolhas que poderiam ter sido diferentes, tudo isto dentro de um turbilhão de hipoxia, cansaço, privação de sono, má alimentação, temperaturas absurdamente baixas e ventos massacrantes.

As condições no topo do Everest, convenhamos, são significativamente mais agrestes do que aquelas da sua última prova de vestibular. Eu sofro de fobia de altura, de modo que não passaria nem perto do Himalaia. Se há um protagonista no épico de Krakauer, este é a montanha. Os próprios sherpas consideram os eventos tenebrosos descritos no livro como emanações vingativas de uma montanha ofendida pela presença de conspurcadores pagantes. É a montanha, este monstruoso naco de rocha que propicia gelo eterno não muito longe da linha do Equador, o palco do frio intenso e do ar rarefeito que torna esta conquista tão desejável, e o impulso do alpinista tão mortal.

Krakauer sabe construir a tensão na narrativa. Apresenta um aperitivo movimentado, do meio dos eventos, no começo do livro, à modo de tantos filmes de ação, para então começar, no início cronológico, a contar a historia. Os personagens são apresentados com riqueza de detalhes, tanto de biografia quanto da percepção pessoal do narrador. A montanha, como protagonista, recebe um belo resumo de sua relação com o ser humano. Feitas as apresentações, o pau come solto até a última página. Não faltam vilões, herois, boçais, egoístas, distraídos, todas as facetas extremas que o Everest extrai dos que ousam encará-lo.

Ao fechar o livro, fica o eco do gigante encravado entre o Nepal e o Tibete ressoando em um coração ressabiado. Distante e aterrorizante.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para Jon Krakauer: No Ar Rarefeito

  1. mafra disse:

    se eu disser que sinto um pouco de raiva de alguém que lê tantos livros, pega mal?

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