Gabriel Gómez: Borges e Outras Ficções

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A capa apela, insinua uma homenagem a Borges. O golpe funciona. Aberto o livro, examinadas as páginas, o leitor descobre tempo para observar com mais atenção as orelhas. O livro é apoiado por duas entidades da indústria farmacêutica, como pude errar tanto assim? A foto do autor, um clichê de estúdio fotográfico de pouca inspiração e muito glacê, deveria servir de alerta inequívoco. Deixei passar, sei, Borges, mesmo sendo um direitista abjeto, é um monstro da literatura latino-americana.

O conteúdo exercita todos os temas caros a uma visão que temos do argentino. Ou da Argentina. Cita Borges com orgulho, sem esquecer de Bioy Casares, que completa esta dança orbital literária. Vaga pelas ruas da sempre homenageável e lamentável Buenos Aires, brinca levianamente com uma variante do infinito de que Borges se servia com regularidade, escreve alguns poemas onde ecoa um tango já lamentado como vítima da pausterização da música eletrônica de consultório de dentista, fala de sexo e lascívio e de uma musa que pode ter, ou não, o nome de Laura, revisita os horrores da ditadura argentina em linha direta com um torturado que pode ser todos dado que os repressores eram ignorantes o suficiente para torturar por torturar qualquer um que não fosse conservador da religião dos golpistas, cita correspondências e lamenta os meios modernos de comunicação ao mesmo tempo em que desvela fragilmente a rede mundial como o possível livro de areia, aquele das páginas infinitas que geram a si próprias, se mesclam e se reproduzem, de modo que o leitor nunca lê o mesmo livro assim como nunca se navega o mesmo rio.

Ainda que seja um bom entretenimento, com alguns achados interessantes de prosa poética, o volume de Gabriel Gómez passará pelo teste da memória como exatamente um entretenimento. Gómez se propõe um exercicio similar ao que se encontra em Enrique Villa-Matas, a saber, uma mistura de erudição e ficção, literatura para ser lida por escritores ou metidos, mas a intenção soçobra; produzir villamatices é para poucos.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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