Leonard Mlodinow: O Andar do Bêbado

O-Andar-Do-Bebado

O Andar do Bêbado é o segundo livro de Leonard Mlodinow que leio; o primeiro foi Subliminar, que serviu para quebrar diversos dogmas sobre minhas certezas intuitivas sobre o mundo. Ou sobre como percebo imperfeitamente este mundo. O Andar do Bêbado é também o livro que tornou Mlodinow célebre, e com razão.

A leitura pode assustar inicialmente, pois Mlodinow passa, depois de uma breve introdução, a descrever como as ciências xifópagas da Probabilidade e da Estatística foram moldadas. Isto envolve menos matemática do que raciocínio lógico, mas pode assustar. Entretanto, é fascinante descobrir, por exemplo, que o sinal de “igual a” foi introduzido na matemática apenas depois do Renascimento. Estes capítulos servem para construir, ou recapitular, o conhecimento necessário para que o leitor tenha sua ficha derrubada finalmente.

A conclusão é perturbadora. Quase todas as suas convicções em relação ao futuro estão erradas antes mesmo de deixarem o forninho da mente para adentrar o mundo exterior pelo portal da fala. O mundo é muito mais aleatório do que pensamos ser, e nosso cultivo da percepção de controle sobre os eventos é um exercício fútil de egocentrismo. Religiosos e crentes sofrerão muito com este livro, assim como seguidores da astrologia, e mesmo profissionais das ciências exatas estarão em maus lencóis. Aliás, Mlodinow frisa que são justamente os matemáticos os seres mais propensos a não aceitar a solução para o Problema de Monty Hall. Aliás, a maior parte dos engenheiros que conheço torce para times de futebol e/ou aposta em loterias, então a falta de noção sobre o que seja um arremesso de moedas não-viciada é generalizada nesta classe.

Mlodinow aponta sua espingarda para alvos corporativos também. Sabe aquele CEO que ganha milhares de vezes o que ganha um trabalhador na linha de montagem? Pois é, ele influencia pouco, ou nada, no destino da empresa que comanda. E, quando a empresa passa por uma fase financeira ruim, demiti-lo é apenas um ato irracional e desnecessário. Ah, também temos a tendência absurda a considerar mais válidas as ideias de um colaborador que receba maior salário, assim como iremos inevitavelmente massacrar um funcionário de baixo salário pelos erros que possivelmente perdoaremos num de salário mais alto.

Com sua prosa encantadora e seu humor mordaz, Mlodinow consegue mesmerizar leitores ao discorrer sobre um assunto normalmente árido mesmo em cadeiras acadêmicas. Longa vida a divulgadores científicos como ele.

(…)

Aliás, tu sabias que o mecanismo de reprodução aleatória dos primeiros iPods teve de ser alterado? Um sistema aleatório verdadeiro apresenta uma certa probabilidade, baixa mas real, de tocar a mesma música duas vezes em seguida. Os usuários, observaram os desenvolvedores da Apple, não estavam preparados para um contato com a aleatoriedade real, e incluíram um algoritmo para impedir faixas repetidas em seguida. Mlodinow tinha razão.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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