Anatole France: Os Deuses Têm Sede

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O ano era 1989. O Brasil ainda vivia a ressaca das diretas, com direito a um alagoano pomposo a fornecer respostas fáceis e inviáveis para problemas complexos. Eu estava no meu segundo semestre de escola técnica, ainda passando por provações imensas por conta de meu sotaque e de minha personalidade peculiar. A Revolução Francesa, um dos marcos divisórios da história da humanidade, completava duzentos anos de sua conflagração inicial. Em comemoração, o professor de história de minha turma propôs que a turma cantasse a Marselhesa. Quem não cantasse teria de apresentar um trabalho sobre algum assunto, provavelmente sobre a mesma revolução, e seria chamado de “vaca de presépio” pelo restante do semestre.

A idiosincrasia já orientava meus passos naquela época, e me recusei a tal papelão. Porque? Não faço ideia. Adolescentes adoram desafiar autoridades, e eu não queria desapontar meu futuro eu, talvez. Ficamos eu e dois outros colegas, por quais não lembro de nutrir nenhuma irmandade ideológica, se é que era este o caso. Éramos três adolescentes, tão idiotas quanto os que aceitaram cantar a Marselhesa. Eu nunca soube dizer o que me incomodava, o que me motivava a ser irascível em relação às boas intenções daquele professor.

Vinte e cinco anos depois eu encontro o texto que me daria munição para desbancar aquele meu professor de história. Anatole France investe verve e raiva neste seu clássico, Os Deuses têm Sede. O título se refere aos cães que rondavam os patíbulos para lamber o sangue que corria abundante pelas estruturas de madeira. France descreve os horrores de uma revolução, mas, talvez inadvertidamente, fale de todas as revoluções.

Seu estilo leve cria um efeito agri-doce numa narrativa cuja espinha dorsal é a ascensão e glória de Gamelin, um pintor medíocre que passa da indigência a juiz aterrorizante para em seguida encontrar-se, ele próprio, com a guilhotina. France demonstra que o teatro das condenações, a sede de sangue, é independente do partido de quem está a ser supliciado. Um dia no poder, outro nas masmorras. O olhar profundo de France dissolve-se migrando para sua pena, ou caneta, habilidosa, e encanta tanto quanto nos desespera. De raiva dos estúpidos, dos lorpas, dos canalhas que constituem os tribunais revolucionários de todas as eras.

O tema foi apropriado posteriormente em várias mídias e modos de contar histórias, mas é France quem tem a primazia do assunto, tanto pelo pionerismo quanto pelo fato de ter vivido em uma época por si conturbada, e também um momento em que a história se distanciava o suficiente para digerir o acontecido, mas não tanto que se deslumbrasse, como o meu professor de história, a ponto de esquecer a ignomínia que atravessou, como uma lança embrutecedora, aqueles dias.

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Pedante e decadente, ao seu dispor.
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