Graham Greene: O Crepúsculo de um Romance

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Minha edição de The End of The Affair transborda cafonice. Que eu não consigo verter em algo diferente. A tradução do título, apesar de conceitualmente correta, não ajuda. Não creio que Greene tenha pensado, ao criar o título desta sua novela, em algo tão pomposo, onde coubesse a palavra “Crepúsculo”. Nem falo de vampiros adocicados: esta palavra já estava estigmatizada em 1964, ano de impressão do volume que agora resenho. Curiosidade: o livro confessa que foi impresso nos Estados Unidos do Brasil. Não sei precisar se antes ou depois do golpe; cinquenta anos passam de um jeito esquisito, não sei dizer se rápido ou devagar.

Este romance se passa em cenário pequenos, e próximos uns dos outros. Imagino que verter esta novela para o teatro não deve ser muito difícil, pelo menos quando se trata das locações. Greene depura ao máximo a trama, usando de poucos personagens, tornando-os indispensáveis. Incomoda-me que o narrador seja um escritor, expediente que mesmo em Roth soa um tanto preguiçoso. Bendrix, entretanto, funciona. Greene usa sua marionete para destrinchar alguns pedaços do metiê do escritor, de um modo que encontraria eco, mais tarde, na prosa de Kundera, outro cultor do romance enquanto ferramenta para pesquisa da alma humana.

O núcleo dos eventos parece, à primeira vista, um simples triângulo amoroso onde a mocinha se debate entre o comodismo e o amor puro e desprovido de confortos financeiros. Greene, eu confiei, não me colocaria numa enrascada dessas. E não colocou. A narrativa é bruscamente redirecionada a partir de certo momento, mostrando os reversos por trás de várias das certezas de Bendrix e de Miles. Sarah, a mocinha, ao mesmo tempo domina os pensamentos de quatro homens e protagonizaria, de boa, a canção Without You I’m Nothing, da banda européia Placebo. Entendedores entenderão.

Como de praxe, a escrita de Greene é límpida, uma verdadeira aula para todo e qualquer aventureiro das folhas em branco. Ele aborda os estados de espírito de seus personagens com várias ferramentas, sempre extraindo um efeito revelador enquanto poético. E vice-versa. Vence-se as primeiras páginas estranhas, e logo o pequeno mundo que orbita Sarah se enche de vida, como um carrossel sinistro em uma história de fantasmas.

Greene oscila controladamente das descrições de amor intenso e abnegação frustrante aos acessos de êxtase religioso. Questiona a fé e as instituições extraindo-se de cena sutilmente, deixando que Sarah se enleve na presença Dele, Smythe se encolerize com a cegueira humana e Bendrix pragueje contra o elevadíssimo escondendo o que ele chama de coincidências, e que provavelmente o sejam realmente.

Ah, Greene, se todos fossem como você.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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