06.09.2014: Overload Music Fest

overload

Este texto visa relatar minha percepção particular dos eventos ocorridos durante o primeiro Overload Music Fest, ocorrido no dia seis de setembro de 2014. Esta percepção pode ter sido influenciada pela minha consorte Mari, e pode não ser ser tão divertida quanto as aventuras, dignas de uma continuação indie de Férias Frustradas, que ocorreram logo antes e logo depois de entrarmos no Via Marquês.

Inicialmente peço desculpas à banda Labirinto por não ter assistido à sua apresentação. Eu estava curioso, mas minha idade e algumas restrições físicas me impedem de chegar cedo a um evento que se prolongará até quatro horas da madrugada. Se serve de consolo, gostei do que ouvi na internet, e ainda mais das artes dos cartazes.

Já que estou pedindo desculpas, aproveito para informar que não vou postar nenhum registro fotográfico das apresentações, pois eu estava munido apenas de meu celular, cuja lente é esforçada mas carece da qualidade das que equipam minha câmera. Que, por sinal, ficou guardada em casa depois de eu haver lido, claramente, no regulamento dos shows que não se aceitaria a entrada de câmeras ditas “profissionais”. Preferi não me incomodar com possíveis rusgas na entrada do clube, e com o peso da mochila da câmera e das lentes.

Mas vamos aos shows. Quando me postei diante do palco, a banda Fate’s Warning se esfalfava em sua antepenúltima música da noite. Imagino que os discos da banda devem ser interessantes, dado que vi pessoas com camisetas da banda, e isto me leva a crer que são fãs. Este raciocínio pode não ser plenamente consistente quando se fala de uma pessoa que carrega uma bandeira de candidato do PMDB, mas costuma apresentar uma boa relação de causa e efeito quando se trata de bandas de rock ou gêneros afins.

Cinco integrantes da banda se postavam à frente do palco, com o baterista ao fundo. O som estava embolado, e a maçaroca não deixava claro que instrumento estava soando em cada um de meus canais mentais, apesar do aparente esforço da banda. O baixista era simpático, e havia momentos em que seu instrumento podia ser ouvido, mas o tecladista tinha uma única virtude, que era balançar seu topete estiloso e ameaçar arrancar seu instrumento do suporte enquanto ameaçava a plateia. O par de guitarristas não apresentava cheiro aroma ou fedor, e o vocalista é um caso à parte.

Único integrante de boné, não coadunava com o restante da banda, apesar do aparente entusiasmo desta com o primeiro. Seu vocal volta e meia se reduzia a uma espécie de latido que, perdoem-me se foi o caso, poderia se passar por uma escolha estética. O rapaz parecia ter sido convocado por um olheiro que o pinçou entre os extras que aparecem naquele programa onde pessoas barbudas falam de motocicletas barulhentas. Me arrependi de não ter jantado direito para chegar em tempo ao show.

Algumas pessoas deviam pensar o mesmo, pois antes da última música do Fate’s Warning eu ouvi espectadores falando sobre Swallow The Sun, a banda seguinte. E provavelmente a que menos fechava com a imagem de post-rock que permeava o evento. Um metal progressivo honesto e bem feito, com guitarras claras, vocais empolgantes, presença de palco e todos os clichês que cercam o gênero. Se tocasse numa FM enquanto eu estivesse indo para a praia, eu não mudaria de estação.

Mas deixemos de amenidades: o Alcest era a próxima banda, extremamente bem representada por camisetas na plateia, bem mais do que a atração final, God Is An Astronaut. Os fãs saudaram a entrada da banda com devoção messiânica. O vocalista parece-se um pouco com o Bruno Gouvea, do Biquíni Cavadão, e apresenta um figurino nova era contido. O outro guitarrista/vocalista segue esta linha de forma menos saliente.

Assim que começaram a tocar, tive uma impressão de que o rock francês sofre de muita alegria de viver, considerando que meu campo amostral consistisse de Alcest e Phoenix. Gente muito feliz, bem alimentada, espécie de ursinhos carinhosos cabeludos que gostam de Jerry Lewis. As músicas mostram que vieram de discos de fases bem distintas, e não é necessário esforço para notar que há qualidade no som da banda, que eu diria transitar entre post-rock e shoegazer, com alguns histerismos vocais que algum desavisado confundiria com trash metal ou mesmo o resultado de uma terapia de grito primal em um bancário do interior da França.

O som continuava embolado, e a banda brilhou em alguns momentos apenas, com solos inspirados e uma coesão instrumental que não fez feio. Eu acho que ficaram devendo em qualidade, e os fãs acham que o show poderia ser mais longo.

Nesta altura do campeonato, eu já tinha uma longa lista de dores, decorrentes da idade, a registrar. Meu temor era que o mau humor aflorasse e a apresentação do God Is An Astronaut fosse decepcionante. Sabe como pessoas idosas são. Entretanto, como alguns relatos do show do Rio antecipavam, os irlandeses são da pá virada.

As cortinas foram abertas, e a banda entrou com os dois pés no peito dos espectadores. Foi petardo atrás de petardo, guitarras límpidas em meio a tempestades eletrônicas, e vice-versa. Bateria e baixo perfeitamente alinhadas, permitindo que os dois homens de frente mostrassem malabarismos empolgantes. Os discos da banda foram bem representados, e, não fosse a torrente sórdida de som que nos era enviada do palco, seriam ouvidos suspiros encantados de diversos pontos da plateia.

Pensei que a ausência das projeções, que são tradição em shows da banda, causaria problemas, mas elas foram substituídas por uma boa interação dos dois guitarristas com a plateia. Rolou o truque manjado da bandeira do Brasil, rolou descida do palco para tocar no meio da galera, mas o principal foi a execução competente de suas fantásticas composições.

Acordei no domingo de manhã, e parecia que havia uma sirene de navio cargueiro atravessando o espaço entre as minhas orelhas. Esta hecatombe movida a ficção científica e excelência musical ainda ecoava em minha mente.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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