Eugene O’Neill: Longa Jornada Noite Adentro

 

 

longa

Morrissey radiografou bem a farsa do amor romântico em Miserable Lie. Somos ensinados a buscar um par romântico, alguém, a metade da laranja, por quem deixaremos de ser os babacas egoístas que somos. Como sabemos que encontramos a pessoa certa? O coração, este órgão infalível e tão poderoso, nos dirá, e nos apaixonaremos loucamente por esta pessoa. Nosso amado mancuniano cantou certo, e garotas bonitas fazem túmulos. Garotos bonitos, idem, embora ele não quisesse, naquela altura do campeonato, deixar isto tão claro. Primeiro parágrafo, e já falei de duas canções dos Smiths? Bom, ao livro.

Mary ia ser freira e tocava piano. Tyrone era um ator de teatro famoso, muquirana e não exatamente exigente com o nível artístico dos papéis que aceitava. Mary é apresentada a Tyrone pelo pai dela, e ambos se apaixonam, se casam, têm filhos e vivem ignominiosamente infelizes. Se estivessem atrelados a famílias que lhes arranjassem casamentos dentro de suas respectivas classes, teriam sido menos ou mais felizes? Como saber…

Curiosamente, o autor da peça focou seus relacionamentos sérios com colegas do mundo da arte; seria uma evidência de que aprendera a lição? Apesar do primeiro casamento ter fracassado terrivelmente, o segundo foi duradouro e, provavelmente, feliz.

O drama da família idealizada de Eugene O´Neill pode carecer do impacto que se apresenta em produções bombásticas de dinamarqueses dogmáticos. Esta peça, por exemplo, não expõe escândalos de incesto, adultério bizarro ou outras revelações apelativas. Mary é viciada em morfina, Jamie bebe horrores e é um fracassado, Edmund/Eugene segue hesitante os passos de Jamie, e Tyrone é um mão-de-vaca que não nasceu, em definitivo, para ter um lar, preferindo estar a gabar-se em bares e tabernas.

O’Neill não expõe sua família mais do que o necessário. Mary pode não conseguir se desenvencilhar da morfina, mas o faz por viver um casamento infeliz, e também por desequilíbrios químicos que seriam diagnosticados de forma trivial atualmente. Jamie é um inútil, um canalha, mas a bebida induz nele, ao ápice da peça, um transe extremamente benéfico onde o irmão monstruoso é possuído repentinamente de uma consciência límpida, que incita o irmão caçula a fugir, fugir o mais rápido possível de sua influência. É como se o vilão subitamente se desse conta de quanto é mau, e ajudasse o frágil herói a escapar de um castelo em chamas, que desaba em seguida sobre o facínora, redimido enfim.

Tyrone, papel que Philip Roth empurra para seu titã demolido em A Humilhação, justifica-se pela herança de uma mentalidade que não consegue se desligar da pobreza em que viviam seus antepassados irlandeses. Ao ter a sorte de prosperar, Tyrone se agarra aos cifrões mesmo que ao custo de sua alma artística.

Longa Jornada Noite Adentro é uma obra de fôlego intenso, que sobreviveu ao soçobrar de muitos de seus contemporâneos. É um drama exposto na medida justa do sofrimento de seus protagonistas.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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