13.09.2014: Peter Murphy & Wayne Hussey

peterhussey

Há sonhos que são acalentados por anos. Muitos anos. No caso de Peter Murphy, vinte e cinco anos separam o momento em que eu lembro de, passando perto do drive-in Charel, na avenida central do Kobrasol, os dedilhados iniciais de Indigo Eyes entraram por meus ouvidos vindos de meu glorioso Broksonic, até o momento em que eu vejo o cantor inglês adentrar o palco do Carioca Club em Pinheiros, São Paulo.

A emoção me faz atropelar a cronologia da noite de sábado. Rebobinemos até o momento em que Wayne Hussey aparece, madeixas curtas, tocando uma espécie de bandolim de dez cordas, carregado de efeitos a ponto de mal se reconhecer a melodia, e entoando Killing Moon.

Primeiro eu pensei que ele tinha usado tantas drogas que havia esquecido de qual banda havia participado nos anos oitenta. Sabe como é, dependendo do nível de realização, o sujeito até pode preferir inventar uma lembrança. Mas não é o caso. O Mission é uma banda que renega o princípio do Barão de Itararé, e conseguiu passar de spin-off pretensioso do Sisters of Mercy a banda de repertório suficiente para encher uma hora apenas com seus hits.

Num segundo momento do bandolim incrementado eu pensei que Hussey estava bancando o engraçadão, e que logo entraria uma banda quebrando tudo. Doce ilusão. Ele seguiu tocando sozinho, algumas vezes com uma base pré-gravada que constrangeria praticamente qualquer artista. Mas não Wayne Hussey. Os momentos mais interessantes ocorrem quando ele resgata canções do primeiro álbum, como Wasteland, que fica bem aceitável no violão.

Hussey, todavia, ficou devendo. Houve boas surpresas, mas The Mission não é banda que se execute com one-man-band. Há de existir pompa e circunstância, o povo pede sangue e bateria espancada, solos desvairados, drive furioso. Talvez Peter Murphy quisesse a noite apenas para si, deixando a Hussey o cargo de esquentador de plateia.

As cortinas fecham, eu bebo duas rodadas de energético com vódega, a bebida dos campeões, e eis que surge señor Murphy e banda, em boa forma. Os anos levaram seu cabelo, mas Murphy ainda entende de palco como poucos. A banda, cuja soma das idades devem ser inferior à de seu frontman, esbanja boa vontade, embora perca feio numa comparação com os lendários Hundred Men que acompanharam Murphy até ele chegar em sua fase sufista.

A turnê leva o nome do último disco, que ganha alguma força ao vivo. O álbum soa um tanto burocrático, talvez ele devesse ter esperado a poeira de Ninth baixar. As canções novas não chegam a atrapalhar, e o pique das canções de Ninth compensam. O setlist é bem similar ao que eu vi de outros shows da turnê, e fecha, claro, com Uneven & Brittle, a canção mais possante de Ninth. Boa parte do repertório demandaria arranjos complexos e bons sintetizadores, e a formação presente no palco definitivamente não parece interessada nisso. Murphy quer soar cru e direto, e isto tem seus méritos, mesmo diante das viúvas da fase inicial de sua carreira solo. Ele também tocou duas do Bauhaus, e eu xinguei muito o seu baixista por ter limado o aspecto dub magnífico que She’s In Parties possui. Diabos, dava para ficar escutando aquele baixo original em uma versão de vinte e três minutos sem pestanejar.

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Pedante e decadente, ao seu dispor.
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